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09/01/17

© Bernardo Martins

Esse momento não foi o início de nada, nem sequer de um conhecimento, também não foi o fim de nada, e talvez fosse isso o que pensei quando estava a escavar o buraco há uns dias, que ainda estou a meio de qualquer coisa, e sempre estarei.

Karl Ove knausgård, in No Outono

01/01/17

© Bernardo Martins


"...tudo pronto para que a luz estremeça:
o terror da beleza, isso, o terror da beleza delicadíssima..."


Herberto Helder

31/12/16

© Bernardo Martins


"...um instante oblíquo, e enriquecer e intoxicar a vida com essas misteriosas coisas roubadas." 


Herberto Helder

07/06/16

© Bernardo Martins, 2015



A imensidade vazia das coisas, o grande esquecimento que há no céu e na terra...

Fernando Pessoa, in Livro do desassossego

16/05/16

© Bernardo Martins, 2015

- Se o mundo fosse feio, chegávamos sempre a horas, é o que lhe digo, Excelência.

Gonçalo M. Tavares

15/02/16

© Bernardo Martins | The Irish west coast, Inch Beach, 2015


...hei-de passar um fio através dos meus poemas para que o tempo
e os acontecimentos fiquem unidos,
E todas as coisas do universo sejam milagres perfeitos, cada um tão
profundo como os outros.

Walt Whitman

19/08/15

© Bernardo Martins, 2015


O mundo começava com uma chegada, que era uma partida. Com uma viagem. É ali: lugar a que mais tarde viria a dar um nome. Um lugar que começou a crescer, até não haver lugar algum. Ou só a indiferença de todos os lugares...

Rui Nunes, in Barro

21/07/15

© Bernardo Martins, 2015


I could only tell you about the technique. The music, the silence, the words and the beauty, those you already know.

Bernardo Martins

10/06/15

a viagem é a pátria

© Bernardo Martins | Irlanda, 2015


Tem muitas pátrias?
Quanto mais tempo estou, mais estrangeiro me sinto porque vou perdendo a minha coesão, vou perdendo a minha identidade, vou-me dissolvendo, de modo que é melhor não estar muito tempo nos sítios.

Como a palavra que, repetida, se esvai completamente?
É isso, uma palavra repetida perde o sentido, chega a uma altura em que é unicamente um som. Tal como um país repetido vai perdendo todo o sentido. A viagem é exactamente o contrário, a viagem é a pátria, é a grande pátria. Porque é na viagem que eu ganho coesão, não é na paragem; na paragem eu perco. A vida devia ser um durante com muito poucas paragens.

Rui Nunes, aqui.

26/05/15

© Bernardo Martins


afinal a vida é relatável
é preciso é perder o medo de contar
o que se passa entre portas
onde se passa tudo o que deveras importa
e nalguns casos é só o que existe
pois a maior dos humanos
teve só a vida e pouca obra
mas ter só vida é uma imensidão de possibilidades
narradas ou não

é assim com as pessoas comuns
aquelas que constroem a história
que estão ali de sol a sol a dispor as pedras
do presente
umas sobre as outras


Rosa Oliveira, in Cinza

11/05/15

© Bernardo Martins


É aí, no mais íntimo, que nos apagamos, mas é também aí que o silêncio se incendeia, iluminando a realidade e unindo-nos a ela. É o nascimento de nós mesmos e o nascimento do mundo. Na suprema suavidade desta fusão, somos livres e unos, idênticos e puros.

António Ramos Rosa, in Mais silêncio mais sombra - Prosas seguidas de diálogos

30/04/15

© Bernardo Martins | Giovano Anselmo, 2015


Tenta, tenta só
pôr asas numa pedra, tenta
seguir o rasto de um pássaro
no ar.

Hans Børli

06/04/15

© Bernardo Martins

Pela janela surda, um sopro, derramado do fundo obscuro do céu...

Francis Ponge

27/03/15

© Bernardo Martins


Porque somos como as árvores, presos a um lugar, respirando através de uma lei calma e perene.

Herberto Helder

17/12/14

© Bernardo Martins, 2014


Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca.

Mário Cesariny

06/12/14

© Bernardo Martins, 2014

Foi viver para a Áustria, numa zona muito isolada. Porque procurou esse isolamento?
Foi natural. Quer dizer: o isolamento está ligado a um certo desgosto do mundo. Não sou religioso, se fosse teria ido para um convento, possivelmente. Há em mim essa necessidade. O encontro comigo mesmo dá-se no silêncio, e é mesmo um silêncio absoluto. Há uns tempos, durante uma semana, tive o cuidado de medir o tempo que passava em conversa com os outros e fiquei espantado. Verifiquei que era ainda menos que aquilo que imaginava.

O desgosto na sua relação com os outros estava ligado a uma desilusão daquilo que o Rui esperava, daquilo que em si criou e que por isso esperava encontrar no outro?
É difícil dizer. É tudo. Mas em criança eu já era assim. Tinha fases em que era extremamente endiabrado e depois tinha fases em que me isolava absolutamente. Era capaz de passar horas na praia a olhar para o mar sem ninguém por perto. Oscilava entre uma situação e outra. Hoje tenho esta necessidade absoluta de silêncio, e por isso não gosto de estar em Portugal.

Mas pela relação com os portugueses?
Não. Para já, não tenho nada desse sentimento do patriota. Não gosto dos ícones da pátria, não gosto de pátrias, fronteiras e hinos. Mas o problema é o ruído. Estou sempre a ouvir gente. Estamos aqui e estamos a ouvir gente. As casas parecem-me todas de papel. Os ruídos atravessam as casas. Não há um minuto de silêncio. Chego a Viena e sinto-me em casa, tenho uma espécie de felicidade do reencontro. Não é com a casa, é com o silêncio.

Isso serena-o ou liberta-o para pensar?
Permite-me ficar mais próximo de mim. É o silêncio dos ruídos naturais. Tudo é natural, é evidente, mas eu gosto do ruído do vento, da chuva, da neve a bater. Gosto das gralhas, gosto de ouvir esses ruídos. É um lugar-comum, mas são esses ruídos o grande silêncio. Isso aqui não tenho. E depois há pouca sobriedade nas palavras, as pessoas falam desesperadamente.

Há a sensação de que o estado de solidão é um estado dramático em que uma pessoa cai quando fracassa e então esse desespero pode surgir por as pessoas sentirem que devem falar, que se uma pessoa estiver bem é comunicadora?
Exacto, é isso. E não interessa o que a pessoa diz, é preciso é dizer. É a fala contínua. E quem não diz continuamente é suspeito. Quantas vezes se ouve: "Porque é que estás calado?" Eu não preciso de justificar-me por estar a falar, mas preciso de justificar porque estou calado. "Estás tão calado!" E eu digo sempre: "E tu, porque é que estás a falar tanto?" Aquilo que se pretende é que o discurso da pessoa seja uma confissão contínua. "Fala porque ao falar mostras-te. Porque ao falar tornas-te claro. Não sejas obscuro."

Entrevista de Diogo Vaz Pinto, aqui

02/12/14

© Bernardo Martins, 2014


Quando saí, ofuscou-me
O limpo reflexo sobre coisas e rostos...

Anna Akhmatova

26/11/14

© Bernardo Martins, 2014


"This shimmering space, where imagination and reality intersect - where all life and tears and joy exist, this is the place, this is where we live."

Nick Cave, in 20,000 Days On Earth