09/09/16

© Andrew Dominik | Nick Cave 

“Most of us don’t want to change, really. I mean, why should we? But what happens when an event occurs that is so catastrophic that you just change? You change from the known person to an unknown person. So that when you look at yourself in the mirror, you recognize the person that you were, but the person inside the skin is a different person.” Nick Cave in, One More Time with Feeling



Nick Cave and The Bad Seeds | Skeleton Tree, 2016

07/07/16

E o vento levar-nos-á...

© Abbas Kiarostami

Pergunto-me, por exemplo, por que é que ler uma poesia excita a nossa imaginação e convida a participar na sua 'realização'. Não há dúvida que a poesia, embora incompleta, se cria para alcançar uma unidade. Quando a minha imaginação se mistura com ela, a poesia torna-se minha. A poesia nunca conta histórias. Oferece uma série de imagens, Representando-as na minha memória, apoderando-me do seu código, posso aceder ao seu mistério. 

Abbas Kiarostami, in Duas ou três coisas que sei de mim 

06/07/16

© Abbas Kiarostami - Roads, 1989
Com o passar do tempo, a minha atracção por muitas coisas diminui cada vez mais. Quero dizer que já não tenho, como antes, o mesmo grau de preocupação com os meus filhos, que o meu desejo de comida é menos intenso, que o desejo de ver os amigos é menor. O que substituiu tudo isso e que se torna cada vez mais forte, embora não me atraísse na minha juventude e não percebesse nada dele, é o desejo de estar na natureza, o desejo de contemplar o céu, o Outono, as quatro estações. E muitas vezes disse aos meus amigos: esta é a única coisa que me faz recear a morte. Não o medo de morrer, mas a ideia de perder a natureza que ainda tenho, a possibilidade de contemplar no mundo. Porque o único amor que aumenta de intensidade cada dia, enquanto os outros amores perdem força, é o amor pela natureza.

Abbas Kiarostami, in Duas ou três coisas que sei de mim 


05/07/16

um problema de desassossego...

© Abbas Kiarostami | Roads of Kiarostami, 2006

Fiz muitas coisas ao longo da minha vida e utilizei vários instrumentos: a pintura, o grafismo, a publicidade, a televisão, o cinema, a fotografia e o vídeo, a poesia. Até teatro fiz. Aliás, poderia acrescentar mais coisas a esta lista. Por exemplo, acerta altura da minha existência fui carpinteiro, quando decidi construir sozinho os móveis da minha casa, disso pouca gente sabe. Acho que tudo isso tem a ver com um problema de desassossego...

Abbas Kiarostami, in Duas ou três coisas que sei de mim 

© Sholeh Zahraei - Abbas Kiarostami


Temos um ditado persa que diz, quando alguém olha com verdadeira intensidade: 
"Tinha dois olhos e pediu mais dois emprestados."

Abbas Kiarostami
in Duas ou três coisas que sei de mim 

30/06/16

© The Museum of Everyday Life

27/06/16

Hans Holbein the Younger | The Ambassadors, 1533

Teho Teardo e Blixa Bargeld | Nerissimo, 2016


23/06/16

Nature doesn’t need people. People need nature.




Humans...
Well, they do breathe air. And I make air. Have they thought about that? 
Humans, so smart. They'll figure it out. Humans making air. That'll be fun to watch.

07/06/16

© Bernardo Martins, 2015



A imensidade vazia das coisas, o grande esquecimento que há no céu e na terra...

Fernando Pessoa, in Livro do desassossego

02/06/16

 © Newsha Tavakolian | Magnum photos - Tehran, Iran. 2014


Mahud, climbing the wall of the abandoned empty swimming pool, which is the only quiet place he can find to practice his singing. 

01/06/16

Newfoundland.

© Arno Rafael Minkkinen

The silence was not oppressive; it was open.
But not to us, I thought for some reason. The silence had always been likethishere, long before people existed and would remain so long after they had disappeared. Lying here in this mountain bowl, with the sea spread out before it.
Where did it end actually? America? Canada?
Yes, that had to be it. Newfoundland.

Karl Ove knausgård, in My Struggle: 4 - Dancing in the dark

30/05/16

...
Sade | Lovers Rock, 2000


...
De mão dada contigo entro por mim dentro
...

Fernando Assis Pacheco

18/05/16


James Blake | The Colour in Anything, 2016


pois o poema seria
uma terra cor de terra; uma maneira
de tocar as árvores, chegando aos ramos altos,
esse lugar de todos conhecido, aonde nunca fomos,
onde os pássaros sobressaltados assistem
ao crescimento.

António Franco Alexandre

16/05/16

© Bernardo Martins, 2015

- Se o mundo fosse feio, chegávamos sempre a horas, é o que lhe digo, Excelência.

Gonçalo M. Tavares

12/05/16


Tuxedomoon | Holy Wars, 1985


Feliz aquele que administra sabiamente a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias.

Ruy Belo

09/05/16

07.02.1935 - 09.05.2010

"Ela morreu. E então a morte chegou à mulher.
Dizem agora que ela habita um lugar no céu. Mas o céu é longe demais, vasto demais, um
espaço e um tempo alongado para lá do nosso alcance onde coexiste o vazio, a
profundidade, o insondável infinito."

Fernando M.

06/05/16

Cardo-Roxo

Não existe neste planeta um único ser humano que não mantenha com a música um qualquer tipo de relação. A música, sob a forma do canto ou da execução instrumental, parece ser de facto universal. 

George Steiner

03/05/16


Eric Feigenbaum | Charles Bradley: Changes, 2016


"kept coming back to the take of Charles looking straight at the camera, telling the story with his eyes and reacting in the moment to the song." 

Eric Feigenbaum, aqui.

29/04/16

© Robert Whitman | Prince - Minneapolis, 1977


Voices, loved and idealized,
of those who have died, or of those
lost for us like the dead.
Sometimes they speak to us in dreams;
sometimes deep in thought the mind hears them.
And with their sound for a moment return
sounds from our life’s first poetry—
like music at night, distant, fading away

C.P. Cavafy 

25/04/16

© Ana Hatherly | 25 de Abril de 1974, Lisboa

e "(...) de súbito, o mundo abriu-se, e o horror, que parecia irremediável e sempiterno, desmoronou-se de um momento para o outro sob os nossos olhos, deixando à vista o tamanho, desmesurado como nunca, da esperança.
Foram breves e deslumbradas horas, e talvez tenha valido a pena ter vivido só por elas. Nunca, como nesse dia, estivemos tão próximos uns dos outros nem fomos tão frágeis e vulneráveis. (...) E só tínhamos uma palavra desconhecida para o que os nosso olhos viam e o nosso coração sobressaltadamente experimentava: «liberdade». Murmurávamo-la para nós mesmos e gritávamo-la uns para os outros como quem revela um segredo longo tempo reprimido, descobrindo alvoraçadamente algo novo e espantoso: não tínhamos medo."

Manuel António Pina, in Por outras palavras & mais crónicas de jornal

23/04/16

Os Espacialistas | O Palácio vai nú, 2016 

...
de um mundo indiscutível e inexplicado
de um mundo sem bem-viver mas cheio de alegria de viver
de um mundo sóbrio e ébrio
de um mundo triste e alegre
terno e cruel
real e surreal
aterrorizante e divertido
nocturno e diurno
vulgar e insólito
belo como tudo.

Jacques Prévert

20/04/16

© Jorge F. Marques | Mirian Abad/OBA, 2016

Não era isso que eu queria dizer, 
queria dizer que na alma
 (tu é que falaste da alma), 
no fundo da alma e no fundo
da ideia de alma, há talvez
 alguma vibrante música física
que só a Matemática ouve,
a mesma música simétrica que dançam
o quarto, o silêncio, 
a memória, a minha voz acordada, 
a tua mão que deixou tombar o livro
 sobre a cama, o teu sonho, a coisa sonhada;
e que o sentido que tudo isto possa ter
é ser assim e não diferentemente,
 um vazio no vazio, vagamente ciente 
de si, não haver resposta
 nem segredo.


Manuel António Pina

18/04/16

© Jorge F. Marques | Mário Marques Trilha/OBA, 2016


...e somos levados pela música sem dar por isso.

T.S.Eliot

13/04/16

© José Paulo Ruas | Igreja do Menino Deus, Lisboa

A música p'ra mim tem seduções de oceano!

11/04/16

© Steve McCurry 

Não mais o teu olhar te defende 
Tu és um ser exposto a todos os olhares

Ruy Belo

29/03/16

I exhale

Underworld | Barbara Barbara, we face a shining future, 2016


...
Hold hands
and we go away

28/03/16

© Edward Honaker

Não tens tudo, claro - nunca ninguém o teve -, contudo podes pelo menos garantir a ti próprio que não estás louco, e eis a prova: como alguém no lixo separa diferentes materiais - garrafas velhas de restos de comida -, tu separas o belo do que não o é. E separar é, em parte, ser lúcido.

Gonçalo M. Tavares, in Breves notas sobre o medo

07/03/16

© Elliott Erwitt/Magnum Photos, 1955


Só começamos a estar vivos quando deixa de ser fácil.


Gonçalo M. Tavares, 
in 
Breves notas sobre ciência, o medo e as ligações

01/03/16

© Arno Rafael Minkkinen

A idade pode não me ter ensinado grande coisa, mas há algo que eu sei que me ensinou: se andarmos com um lápis no bolso, há uma forte possibilidade de, um dia, nos sentimos tentados a começar a usá-lo.

Como gosto de dizer aos meus filhos, foi assim que me tornei escritor.


Paul Auster, in Experiências com a verdade

22/02/16

© Miguel Bartolomeu | Ricardo & Cindy, 2015

É isso que é o amor. Não há nenhuma resposta clara para isso. Quando se reconhece que há alguém mais importante que nós, decidimos, se pudermos, ligar as duas vidas uma à outra. (...) Há um ponto em que a razão expira, em que as opções deixam de ser racionais. Devemos usar a razão, mas não para além do ponto em que ela perde o sentido. E claro, um casamento ou uma relação entre pessoas, obriga-nos a pensar muitas coisas. Mas chega a altura em que todas as razões pró e contra se esgotaram e só nessa altura nos rendemos à vida e ela se torna uma coisa de suprema importância, mas é a vida de um ser consciente de si próprio, não apenas um animal. (...) Ter este sentimento para com outra pessoa e estarem ambos preparados para isto, já é automaticamente viver acima dessa rotina quotidiana, sair dela e experimentar algo sublime.

Roger Scruton, in O Belo e a Consolação

15/02/16

© Bernardo Martins | The Irish west coast, Inch Beach, 2015


...hei-de passar um fio através dos meus poemas para que o tempo
e os acontecimentos fiquem unidos,
E todas as coisas do universo sejam milagres perfeitos, cada um tão
profundo como os outros.

Walt Whitman

09/02/16

© Stuart Franklin

Mal sabia que cada traço daquela paisagem e cada ser humano que a habitava ficariam em mim como recordações permanentes, com a nitidez e a exactidão de uma espécie de ouvido absoluto da memória.

Karl Ove knausgård, in A minha luta: 3 - A ilha da infância

07/02/16

© Jonas Bendiksen/Magnum Photos


... sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.» Assim mesmo. Eu estava lá.

José Saramago, in As Pequenas Memórias

04/02/16


Tindersticks | The waiting room, 2016


"(...) sim, sempre com a minha mão no teu ombro, agarrados um ao outro, apoiando-nos um ao outro, fugimos, como dois amantes solitários e desesperados neste universo aterrador e cheio de fealdade, que só o amor permite enfrentar, e pronto, deixamos tudo para trás de nós, caminhamos sob as árvores, pelas ruas vazias, silenciosas e melancólicas, olhamos para as luzes coloridas dos restaurantes e dos cafés, ao longe, e falamos, com um entendimento mútuo vindo do fundo do coração, como dois apaixonados de quem o mundo inveja não só o amor mas também a profunda amizade (...)".

Orhan Pamuk, in A casa do silêncio

03/02/16

© Martin Parr/Magnum Photos | Peru - Lima, 2015


Nós não somos deste mundo.

Luís Filipe Castro Mendes

01/02/16

© Richard Linklater


Quando voltei a mim, ouvia-se ao longe "More Than This" dos Roxy Music: olhei para o tecto da tenda e, por algum motivo que não compreendia, mas aceitei, senti-me mais feliz que nunca.

Karl Ove knausgård, in A minha luta: 3 - A ilha da infância


29/01/16


Massive Attack | Ritual Spirit, 2016

- "Estás doido? Todo o teu mundo está a ruir, a partir-se, e tu estás à procura de uma palavra?" Depois, percebi que estava certo - é necessário insistir na fiabilidade das palavras. O mundo parecia um erro terrível, mas se eu encontrasse a palavra certa, então encontraria uma coisa certa num mundo que tem sido errado. 

David Grossman

27/01/16

© Harry Gruyaert


Não vou defender as escolhas que fiz. Se não foram práticas, a verdade é que eu não queria ser prático. O que eu queria era experiências novas. Queria sair para o mundo e pôr-me à prova, saltar de uma coisa para outra, explorar o mais que pudesse. E desde que mantivesse os olhos abertos, achava que, independentemente do que me acontecesse, seria útil e ensinar-me-ia coisas que nunca conhecera antes. Isto poderá parecer um procedimento um bocado antiquado, e talvez tenha sido. Jovem escritor despede-se da família e dos amigos e parte para lugares desconhecidos para descobrir de que é feito. Para o melhor ou para o pior, duvido que qualquer outro caminho tivesse sido conveniente para mim. Tinha energia, uma cabeça fervilhante de ideias e pés ansiosos por andar. Dado o tamanho do mundo, a última coisa que desejava era jogar pelo seguro.

Não me custa descrever estas coisas e recordar como me fizeram sentir. A complicação só começa quando pergunto por que motivo as fiz e senti o que senti.

Paul Auster, in Da mão para a boca

25/01/16

© Paul Kohl | Izumi Ueda Yuu


...
também isto é
sublime e quotidiano.

Gabriel del Sarto



NO BORDERS | Museu do Oriente | Até 27 de Março

21/01/16

© Per Maning

... porque o sentido não é alguma coisa que recebemos, mas alguma coisa que damos. A morte torna a vida sem sentido porque tudo aquilo que nos esforçámos sempre por alcançar acaba quando a vida acaba, mas faz também com que a vida tenha sentido, porque a sua presença torna a pouca que temos indispensável, torna precioso cada momento. 

Karl Ove knausgård, in A minha luta: 2 - Um homem apaixonado

20/01/16

© Izumi Ueda Yuu | No Borders


O grande mistério não é o universo.

Edward Witten

15/01/16

© Fernando M. | Este nosso mundo, 2011

Compreender o mundo exige que se mantenha uma certa distância dele. Ampliamos coisas que são demasiado pequenas para serem vistas a olho nu, como moléculas e átomos. Reduzimos coisas que são demasiado grandes, como nuvens, deltas e constelações. Só fixamos o mundo quando o temos ao alcance dos nossos sentidos. A essa fixação chamamos conhecimento. Durante a nossa infância e juventude lutamos para manter a distância correcta das coisas e dos fenómenos. Lemos, aprendemos, experimentamos, corrigimos. Então, um dia, chegamos ao ponto em que todas as distâncias necessárias foram determinadas, todos os sistemas foram estabelecidos. É aí que o tempo começa a acelerar. Já não encontra qualquer obstáculo, está tudo determinado, o tempo passa rapidamente pelas nossas vidas, os dias sucedem-se num piscar de olhos, e, antes que nos apercebamos do que está acontecer, temos quarenta, cinquenta, sessenta anos...

Karl Ove knausgård, in A minha luta: 1- A morte do pai