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11/02/18


Johann Johannsson | Orphée, 2016


...
E sentia-se cada vez mais leve
Ninguém reparou como sorria, de olhos postos no céu.
E depois, um dia…
As pessoas já não sabiam se era alguém que morria, ou alguém que nascia.
Mas uma coisa era certa, ninguém se importaria de partir assim.

Regina Pessoa

13/12/14

© Maria | Casa Museu de Vilar, Dez. 2014


Nasci numa casa com gaiolas brancas
espalhadas pelo Verão
Era o meu pai vivo e o meu avô estival
entrava pela hora mais terna
enquanto encarregado das gaiolas
e a minha infância inteira decrescia
no canto da casa dos pássaros

O alpendre era de uma inclinação natural
com avô e pássaros encostados à sombra dos álamos
e as gaiolas casas que os abrigavam
do frio, da fome e dos gatos bravos
A minha alegria era quente como a terra
e contava ensinar ao meu filho bisneto
a tracção pelos grilos, caracóis
e pintassilgos na doçura das borboletas...


Tiago Patrício, in O Livro das Aves

17/01/13

© Ryan McGinley | Sigur Rós - Valtari - Varúð, 2012

Era uma vez uma menina cujo coração batia mais rápido que o das outras pessoas.
Isso incomodava toda a gente.
Por causa do barulho.
O coração batia tão alto!...
Ela tentava explicar: «É um coração de pássaro... Eu estou no corpo errado!... Daí o coração bater tão rápido... Eu sou um pássaro...»
(...)
Pouco a pouco as pessoas foram-se habituando ao barulho do coração…
Acabaram mesmo por esquecê-la.
Ninguém se apercebeu do que se passava.
E isso era bom para ela.
Também ela se habituava.
Começou mesmo a gostar do seu corpo
E sentia-se cada vez mais leve
Ninguém reparou como sorria, de olhos postos no céu.
E depois, um dia…
As pessoas já não sabiam se era alguém que morria, ou alguém que nascia.
Mas uma coisa era certa, ninguém se importaria de partir assim.

Regina Pessoa, in História trágica com final feliz

29/08/12

E depois, um dia...



História trágica Com Final Feliz
Era uma vez uma menina cujo coração batia mais rápido que o das outras pessoas.
Isso incomodava toda a gente.
Por causa do barulho.
O coração batia tão alto!...
Ela tentava explicar:
«É um coração de pássaro... Eu estou no corpo errado!... Daí o coração bater tão rápido... Eu sou um pássaro...»
«Que é que ela disse?... é tolinha... não deve durar muito…»
Então, ela fugia...
Ela só queria desaparecer, deixar-se levar pelo vento...
Finalmente, a chuva acalmava-a, então ela voltava p’ra casa e continuava a viver, apesar de tudo.
Pouco a pouco as pessoas foram-se habituando ao barulho do coração…
Acabaram mesmo por esquecê-la.
Ninguém se apercebeu do que se passava.
E isso era bom para ela.
Também ela se habituava.
Começou mesmo a gostar do seu corpo…
E sentia-se cada vez mais leve…
Ninguém reparou como sorria, de olhos postos no céu.
E depois, um dia…
As pessoas já não sabiam se era alguém que morria, ou alguém que nascia.
Mas uma coisa era certa, ninguém se importaria de partir assim.

Regina Pessoa