03/04/13

© Abbas Kiarostami, 2008

"Amar com toda a alma e deixar o resto ao destino era a simples regra que ela observava. «Vot zapomni» [lembra-te disto], dizia ela em tom conspirador à medida que chamava a minha atenção para esta ou aquela coisa entre as que amávamos... - ou a cotovia que se eleva no céu de requeijão e soro de um dia encoberto de Primavera, ou o relâmpago de um dia de calor que fotografava uma fileira distante de árvores em plena noite, ou a palmatória de uma folha de ácer na areia escura, ou a pegada cuneiforme de um passarinho na neve recente. Sentindo, talvez, que faltavam poucos anos para a parte tangível do seu mundo perecer, cultivava uma extraordinária consciência dos vários marcos do tempo distribuídos pelos nossos campos. Acariciava o seu próprio passado com o mesmo fervor retrospectivo que à sua imagem e ao meu passado agora empresto. E foi assim que herdei, de certa maneira, um esquisito simulacro - a beleza das coisas intangíveis, de uma propriedade irreal - que iria promover-me um treino excelente para resistir a futuras perdas. "

Vladimir Nabokov, in Na outra margem da memória

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