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06/12/14

© Bernardo Martins, 2014

Foi viver para a Áustria, numa zona muito isolada. Porque procurou esse isolamento?
Foi natural. Quer dizer: o isolamento está ligado a um certo desgosto do mundo. Não sou religioso, se fosse teria ido para um convento, possivelmente. Há em mim essa necessidade. O encontro comigo mesmo dá-se no silêncio, e é mesmo um silêncio absoluto. Há uns tempos, durante uma semana, tive o cuidado de medir o tempo que passava em conversa com os outros e fiquei espantado. Verifiquei que era ainda menos que aquilo que imaginava.

O desgosto na sua relação com os outros estava ligado a uma desilusão daquilo que o Rui esperava, daquilo que em si criou e que por isso esperava encontrar no outro?
É difícil dizer. É tudo. Mas em criança eu já era assim. Tinha fases em que era extremamente endiabrado e depois tinha fases em que me isolava absolutamente. Era capaz de passar horas na praia a olhar para o mar sem ninguém por perto. Oscilava entre uma situação e outra. Hoje tenho esta necessidade absoluta de silêncio, e por isso não gosto de estar em Portugal.

Mas pela relação com os portugueses?
Não. Para já, não tenho nada desse sentimento do patriota. Não gosto dos ícones da pátria, não gosto de pátrias, fronteiras e hinos. Mas o problema é o ruído. Estou sempre a ouvir gente. Estamos aqui e estamos a ouvir gente. As casas parecem-me todas de papel. Os ruídos atravessam as casas. Não há um minuto de silêncio. Chego a Viena e sinto-me em casa, tenho uma espécie de felicidade do reencontro. Não é com a casa, é com o silêncio.

Isso serena-o ou liberta-o para pensar?
Permite-me ficar mais próximo de mim. É o silêncio dos ruídos naturais. Tudo é natural, é evidente, mas eu gosto do ruído do vento, da chuva, da neve a bater. Gosto das gralhas, gosto de ouvir esses ruídos. É um lugar-comum, mas são esses ruídos o grande silêncio. Isso aqui não tenho. E depois há pouca sobriedade nas palavras, as pessoas falam desesperadamente.

Há a sensação de que o estado de solidão é um estado dramático em que uma pessoa cai quando fracassa e então esse desespero pode surgir por as pessoas sentirem que devem falar, que se uma pessoa estiver bem é comunicadora?
Exacto, é isso. E não interessa o que a pessoa diz, é preciso é dizer. É a fala contínua. E quem não diz continuamente é suspeito. Quantas vezes se ouve: "Porque é que estás calado?" Eu não preciso de justificar-me por estar a falar, mas preciso de justificar porque estou calado. "Estás tão calado!" E eu digo sempre: "E tu, porque é que estás a falar tanto?" Aquilo que se pretende é que o discurso da pessoa seja uma confissão contínua. "Fala porque ao falar mostras-te. Porque ao falar tornas-te claro. Não sejas obscuro."

Entrevista de Diogo Vaz Pinto, aqui

04/12/14

John Cage


The sound experience which I perfer to all others is the experience of silence. 




John Cage | 4'33"

14/11/14

Dia 36.

© Tiago Figueiredo | Skye, 2014


Um único banco acolhe quem se queira sentar, entre a estrada e a enseada. Uma placa diz "Em memória de Donald 'Diddley' MacDonald, (1936-2010), muito amado e valorizado por esta comunidade". Sento-me. Quem seria Donald? O que fez, como viveu, como pensou? Quanto tempo passou sentado aqui, quanto amou e dedicou a Skye para merecer tão bonito e útil memorial?

Tiago Figueiredo

31/10/14

enjoy the silence


© Patrick Shen | In Pursuit of Silence, 2014-15


Of the many things that silence can be and do for us, the most powerful might be its ability to reset our minds and hearts, a blank canvas upon which to paint the story of our lives. In a world that consumes so much of us, silence is needed more than ever to free us.

Patrick Shen, aqui

29/07/13

(silêncio)

"Tudo o que quero dizer levaria
mais tempo do que aquele que tenho
aqui"

Jorge Gomes Miranda



17/05/13

Institute for Advanced Study, Princeton


"Numa tarde de quinta-feira, no mágico Institute For Advanced Study em Princeton, nos EUA, o chá é servido entre as 15h e as 16h30m. Um silêncio total, tanto dentro como fora do edifício. Pensar não faz barulho." 

Wim Kayzer, in O Belo e a Consolação com Edward Witten

14/05/13

© Maria | A Hora da Estrela, 2013

"... a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio."
Clarice Lispector

12/05/13

Júlio Resende | Silêncio - For the Fado


"Como Gonçalo M. Tavares escrevia há dias; «(...) neste concerto, sem voz, nesse lugar do meio, no centro, a levantar-se a partir do essencial, está o piano e, como existe caminho, avança-se». E o Júlio...avançou." 


Ontem foi assim, na companhia de Matt Penman, aqui.

10/05/13


Bernardo Sassetti | 24.06.1970 - 10.05.2012

"Gosto de pensar na música de uma forma abstracta, útil, com silêncio - fundamental na música! (...) Quando se vive muito intensamente a música, a música que vive cá dentro, que vem cá de dentro a fervilhar, o grande segredo para a sua transmissão e partilha é o acto contido sobre o que temos e encontramos no fundo de nós. (...) Temos que saber dar tempo ao seu "tempo". Ouvir-lhe a voz. Ouvir-lhe o silêncio." Bernardo Sassetti, aqui.

17/10/12

protejo esse lugar

© Andrei Tarkovsky | The Mirror, 1975

"aproximo-me de falar, mas ambiciono guardar o silêncio; é duvidoso que lhe agrade a simplicidade deste paradoxo. / o seu olhar trespassa-a. a sua face é branca. protejo esse lugar onde as tuas palavras começam." 

António Franco Alexandre

12/10/12

o silêncio desta nossa paixão

© London's South Bank / Marcos Saboya & Gualter Pupo, 2012

"Enquanto professor, alguém para quem a literatura, a filosofia, a música ou as artes são uma verdadeira substância da vida, como poderei eu exprimir a necessidade que sinto de uma lucidez moral, consciente das necessidades humanas e da injustiça que torna possível uma cultura a tal ponto elevada? As torres que nos isolam são mais sólidas do que o marfim. Não sei a resposta satisfatória para este problema.
Contudo, temos de encontrar uma resposta. Temos de a encontrar, se quisermos ser merecedores do privilégio desta nossa paixão, do milagre sempre renovado de segurar nas mãos um novo livro..." 

George Steiner in, O Silêncio dos Livros

ainda o silêncio

© Maria Friberg | still lives #3, 2004


"O silêncio passou a ser um luxo. Só os mais afortunados podem ter esperança de conseguir escapar à invasão da gigantesca parafernália tecnológica."

George Steiner in, O Silêncio dos Livros

11/10/12

o silêncio dos livros

© Wim Wenders | Wings of Desire, 1987




"Não existe neste planeta um único ser humano que não mantenha com a música um qualquer tipo de relação. A música, sob a forma do canto ou da execução instrumental, parece ser de facto universal. É a linguagem fundamental para comunicar sentimentos e significações. A maior parte das pessoas não lê livros. Porém, canta e dança."

George Steiner, in O silêncio dos livros

12/05/12

o silêncio

© Bernardo Sassetti | Lisboa, 2005


"Gosto de pensar na música de uma forma abstracta, útil, com silêncio - fundamental na música!
(...)
Quando se vive muito intensamente a música, a música que vive cá dentro, que vem cá de dentro a fervilhar, o grande segredo para a sua transmissão e partilha é o acto contido sobre o que temos e encontramos no fundo de nós.
(...)
Temos que saber dar tempo ao seu "tempo". Ouvir-lhe a voz. Ouvir-lhe o silêncio."

Bernardo Sassetti

07/03/12

a tua canção

© Fan Ho | Approaching Shadow

"Que o meu silêncio seja a tua canção!"

Georg Trakl

05/03/12

intimidade e solidão

 © Chien-Chi Chang | “A Newly Arrived Immigrant Eats Noodles on a Fire Escape,” New York City, 1998. From the China Town series.

"Preciso muito de solidão. Se calhar toda a gente precisa mesmo sem saber... Aqui é o meu lugar de solidão e de silêncio porque a solidão é também uma forma de silêncio. De silêncio e de intimidade. O ruído de fundo dos automóveis a passar aqui faz parte do silêncio. Não é propriamente... como é que hei-de dizer... um intruso, é quase também silêncio."

Manuel António Pina

18/01/12

aproximo-me

Melodrama para dois actores & um fantasma | Rui Catalão

 "aproximo-me de falar, mas ambiciono guardar o silêncio; é duvidoso que lhe agrade a simplicidade deste paradoxo. / o seu olhar trespassa-a. a sua face é branca. protejo esse lugar onde as tuas palavras começam. " António Franco Alexandre

05/05/11

Ela...


The Irrepressibles | Mirror Mirror, 2010


"Uma tristeza sepulcral habita estes bosques. 

Há um escasso feixe da distante luz solar que perfura o maciço das copas 
e ilumina a terra. Como é profundo o silêncio. Interrompido apenas pelo sussurro 
do vento inquieto ao passar por estes bosques velhos. Chega-nos ao ouvido 
a estranha melodia feita aqui na morada selvagem." F.M.