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26/02/15

© Vivian Maier

"gosto da forma como te olhas no espelho, como um médico inclinado sobre o paciente, sem nenhuma ansiedade mas uma sombra aflorando na expressão, a descoberta sempre de algo que virá a ser grave, aplicas o creme, apertas os lábios, cumprimentas os sinais e adivinhas-lhes ecos, essa metamorfose ridícula, só tu sabes como estás velha, mais bela do que nunca, paciente, é a tua vez de jogar, sentas a morte e até já lhe contas histórias, doseias a luz, serves o chá, fazes algumas sugestões, tens essa tua lista delicada, uma gente que está claramente a mais, gosto da forma como bailas nestes pequenos rituais, como se cada gesto se dependurasse de uma nota soando perfeitamente, caindo na seguinte, fazes-me acreditar que muito depende disto, que o dia não começa nem acaba sem que te assomes ao espelho e lhe ofereças algumas coordenadas"

Diogo Vaz Pinto, in O Melhor Amigo

06/12/14

© Bernardo Martins, 2014

Foi viver para a Áustria, numa zona muito isolada. Porque procurou esse isolamento?
Foi natural. Quer dizer: o isolamento está ligado a um certo desgosto do mundo. Não sou religioso, se fosse teria ido para um convento, possivelmente. Há em mim essa necessidade. O encontro comigo mesmo dá-se no silêncio, e é mesmo um silêncio absoluto. Há uns tempos, durante uma semana, tive o cuidado de medir o tempo que passava em conversa com os outros e fiquei espantado. Verifiquei que era ainda menos que aquilo que imaginava.

O desgosto na sua relação com os outros estava ligado a uma desilusão daquilo que o Rui esperava, daquilo que em si criou e que por isso esperava encontrar no outro?
É difícil dizer. É tudo. Mas em criança eu já era assim. Tinha fases em que era extremamente endiabrado e depois tinha fases em que me isolava absolutamente. Era capaz de passar horas na praia a olhar para o mar sem ninguém por perto. Oscilava entre uma situação e outra. Hoje tenho esta necessidade absoluta de silêncio, e por isso não gosto de estar em Portugal.

Mas pela relação com os portugueses?
Não. Para já, não tenho nada desse sentimento do patriota. Não gosto dos ícones da pátria, não gosto de pátrias, fronteiras e hinos. Mas o problema é o ruído. Estou sempre a ouvir gente. Estamos aqui e estamos a ouvir gente. As casas parecem-me todas de papel. Os ruídos atravessam as casas. Não há um minuto de silêncio. Chego a Viena e sinto-me em casa, tenho uma espécie de felicidade do reencontro. Não é com a casa, é com o silêncio.

Isso serena-o ou liberta-o para pensar?
Permite-me ficar mais próximo de mim. É o silêncio dos ruídos naturais. Tudo é natural, é evidente, mas eu gosto do ruído do vento, da chuva, da neve a bater. Gosto das gralhas, gosto de ouvir esses ruídos. É um lugar-comum, mas são esses ruídos o grande silêncio. Isso aqui não tenho. E depois há pouca sobriedade nas palavras, as pessoas falam desesperadamente.

Há a sensação de que o estado de solidão é um estado dramático em que uma pessoa cai quando fracassa e então esse desespero pode surgir por as pessoas sentirem que devem falar, que se uma pessoa estiver bem é comunicadora?
Exacto, é isso. E não interessa o que a pessoa diz, é preciso é dizer. É a fala contínua. E quem não diz continuamente é suspeito. Quantas vezes se ouve: "Porque é que estás calado?" Eu não preciso de justificar-me por estar a falar, mas preciso de justificar porque estou calado. "Estás tão calado!" E eu digo sempre: "E tu, porque é que estás a falar tanto?" Aquilo que se pretende é que o discurso da pessoa seja uma confissão contínua. "Fala porque ao falar mostras-te. Porque ao falar tornas-te claro. Não sejas obscuro."

Entrevista de Diogo Vaz Pinto, aqui

16/01/13

© Alexander Gronsky


"Estes pensamentos não têm mais ninguém, morrerão connosco, deixando apenas as cinzas de que um vento iletrado disporá insensivelmente. As bibliotecas que queimámos com um prazer minucioso, uma febre elevando o sangue à altura de um majestoso incêndio. Noites em que lançámos sinais de fumo exaltantes à nossa tribo perdida pelos séculos. Somos tão poucos, tão isolados e frágeis, sempre os últimos representantes de uma espécie prometida à extinção. Mas à beira do desespero, numa solidão revoltante, resistimos." Diogo Vaz Pinto, in O melhor amigo