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07/04/13

© Fan Ho

"A remoção das memórias é um acto de defesa. De protecção. Do ser mais frágil que conhecemos. Nós próprios. Remover, esquecer, confundir: são necessidades de um sentimento que de outra maneira transbordaria, partindo as margens. São urgências de um pensamento que colapsaria em si próprio, não encontrando, no fundo de todas as suas acções, um sentido que as tenha guiado. O ser humano não pode memorizar tudo. Não pode. Não deve. Levaríamos nas nossas costas toda a dor do mundo. Compreenderíamos a insensatez de todas as promessas, de todas as esperanças, de todos os sonhos. Morreríamos todos os dias, todas as noites."

Davide Enia, in A terra vista do mar

16/12/12

há sempre mais

© Fan Ho | On the Stages of Life

"Haja o que houver, há sempre mais. Aconteça o que acontecer, há sempre outra coisa a acontecer também.

Se a literatura, esta grandiosa aventura que se desenrola (nos limites do nosso horizonte) há cerca de três milénios, encarna em si mesma uma sabedoria - e eu penso que sim e que é isso que está no cerne da importância que atribuímos à literatura - é através da revelação da natureza múltipla dos nossos destinos pessoais e comuns. Há-de sempre lembrar-nos que pode haver contradições, por vezes conflitos irredutíveis, entre os valores que nos são mais caros. (É isto que «tragédia» significa para mim.) Há-de sempre lembrar-nos do «também» e de «outras coisas».

Susan Sontag, in Ao mesmo tempo

13/12/12

da beleza

© Fan Ho


"O que é belo faz-nos lembrar a natureza enquanto tal - aquilo que existe para além do humano e produzido - e desse modo estimula e aprofunda o nosso sentido da pura amplitude e plenitude da realidade, inanimada mas também vibrante, que nos rodeia a todos."

Susan Sontag in, Ao mesmo tempo

08/03/12

um homem uma mulher juntos (eu e tu)

© Fan Ho | Private


Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos.
Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
— tanto pó sobre os móveis tua ausência.

Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.

Nada me importa; mas tu enfim me importas.

Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
«Que me importa que batam à porta...»
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.

Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
e lhes perdi a conta,
pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.


Fernando Assis Pacheco

07/03/12

a tua canção

© Fan Ho | Approaching Shadow

"Que o meu silêncio seja a tua canção!"

Georg Trakl

06/03/12

o essencial

© Fan Ho | "Afternoon Chat", Tokyo, 2006

"De um modo geral, descobri que numa desgraça, é uma grande prova de força uma pessoa ter que suportar continuamente a solidão. A solidão é mais forte que tudo e conduz-nos outra vez às pessoas."

Franz Kafka