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03/01/13

David Rieff e Susan Sontag


"Ao pensar na minha mãe agora, mais de um ano depois da sua morte, dou muitas vezes por mim às voltas com a frase surpreendente de Auden no seu grandioso poema em memória de Yeats - palavras essas que resumem a pequena imortalidade que a realização artística pode por vezes conferir e que são, simultaneamente, um extraordinário eufemismo para a extinção. Uma vez morto, Yeats, escreve Auden, «tornou-se nos seus admiradores».
(...)
Conheci muitos escritores que se conciliavam com a sua mortalidade, tanto quanto lhes era possível, graças pelo menos à fantasiaa de que a sua obra lhes sobreviveria, assim como aqueles que os amavam e que manteriam viva a memória pelo tempo que a eles lhes restava. A minha mãe era um desses escritores, trabalhando com um olho imaginariamente voltado para a posteridade. Devo acrescentar que - em parte dado o seu irredimível medo da extinção - nada nela, mesmo nos derradeiros dias da sua agonia, revelava a mais ténue ambivalência, a mais ténue aceitação - tal pensamento não só não lhe servia de parca consolação como não era consolação de espécie nenhuma. Ela não queria partir.
(...)
Que mais poderei dizer? Pessoalmente, muita coisa, claro, mas não é a isso que me proponho. Por isso, neste texto, seja-me permitido ser um daqueles admiradores e não um filho (...)" 

David Rieff, in Ao mesmo tempo 

28/12/12

tempo e espaço

© Paul McDonough | Central Park Pond-Kids in Tree, 1973

"Há uma velha máxima que sempre imaginei ter sido inventada por algum estudante universitário de Filosofia (como eu já fui), que, altas horas da noite, depois de ter estado a debater-se com as abstrusas explicações de Kant na sua Crítica da Razão Pura das quase incompreensíveis categorias de tempo e de espaço, tinha decidido que tudo aquilo podia ser dito de modo muito mais simples.

E deu o que se segue:

«O tempo existe a fim de que não aconteça tudo ao mesmo tempo...e o espaço existe para que não te aconteça tudo a ti.»

Susan Sontag, in Ao mesmo tempo

22/12/12

estar atento

© Maria | Verão, 2012


"Amar as palavras, atormentar-se com as frases. E estar atento ao mundo."

Susan Sontag, in Ao mesmo tempo

20/12/12

há sempre mais

© Eikoh Hosoe, 1968

"Haja o que houver, há sempre mais. Aconteça o que acontecer, há sempre outra coisa a acontecer também." 

Susan Sontag, in Ao mesmo tempo

16/12/12

há sempre mais

© Fan Ho | On the Stages of Life

"Haja o que houver, há sempre mais. Aconteça o que acontecer, há sempre outra coisa a acontecer também.

Se a literatura, esta grandiosa aventura que se desenrola (nos limites do nosso horizonte) há cerca de três milénios, encarna em si mesma uma sabedoria - e eu penso que sim e que é isso que está no cerne da importância que atribuímos à literatura - é através da revelação da natureza múltipla dos nossos destinos pessoais e comuns. Há-de sempre lembrar-nos que pode haver contradições, por vezes conflitos irredutíveis, entre os valores que nos são mais caros. (É isto que «tragédia» significa para mim.) Há-de sempre lembrar-nos do «também» e de «outras coisas».

Susan Sontag, in Ao mesmo tempo

são setas espetadas

© English Heritage | Holland House Library - Londres, 1940

"Preocupamo-nos com as palavras, nós escritores. As palavras têm significado. As palavras apontam. São setas. Setas espetadas na pele dura da realidade. E quanto mais portentosas, mais gerais forem as palavras, mais se assemelham a salas ou túneis. Podem expandir-se ou desabar. Pode impregná-las o mau cheiro. Hão-de muitas vezes lembrar-nos outras salas, onde gostaríamos de viver ou onde pensamos já viver."

Susan Sontag, in Ao mesmo Tempo

13/12/12

da beleza

© Fan Ho


"O que é belo faz-nos lembrar a natureza enquanto tal - aquilo que existe para além do humano e produzido - e desse modo estimula e aprofunda o nosso sentido da pura amplitude e plenitude da realidade, inanimada mas também vibrante, que nos rodeia a todos."

Susan Sontag in, Ao mesmo tempo