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02/05/14

© Eikoh Hosoe


"Reading the end of James Joyce's Ulysses when Molly Bloom is remembering is erotic because she gives permission, gives up and gives way, and this is always exciting and interesting because it is personal, not impersonal. Isn't it strange that looking at little abstract symbols on a white page can make a person feel susch things? I see her in his arms. I am in his arms. I remember your arms."

Siri Hustvedt, in Living, thinking, looking - essays

30/01/13

© Eikoh Hosoe

É fácil dizer que o vento
tem gatos na voz
enfurecidos.
Que afaga e despenteia,
traz chuva.
Que levanta as telhas,
exercita na noite
os nossos mais pesados
pesadelos.
É fácil ser poeta
à custa do vento.
Fingir que não sabemos
que o vento não é senão
o vazio que muda de lugar.

A.M. Pires Cabral

20/12/12

há sempre mais

© Eikoh Hosoe, 1968

"Haja o que houver, há sempre mais. Aconteça o que acontecer, há sempre outra coisa a acontecer também." 

Susan Sontag, in Ao mesmo tempo

16/12/12

agora acredito

© Eikoh Hosoe | Kamaitachi #8, 1965

Não sabia que todo o poema

é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito

José Tolentino MendonçaA Infância de Herberto Helder

09/12/12

© Eikoh Hosoe


"Ver a beleza é um privilégio"

Gonçalo M Tavares in, Cinema S. Jorge: Conferência 
Festival LER 25 anos
09.12.2012

04/04/12

o infinitesimal do infinitamente pequeno


© Eikoh Hosoe


"Em vez de lhes contar como escrevi o que escrevi, seria mais interessante falar dos problemas que ainda não resolvi, que não sei como hei-de resolver e o que me levarão a escrever... Ás vezes tento concentrar-me na história que desejaria escrever e vejo que o que me interessa é outra coisa, ou seja, não uma coisa precisa mas tudo o que fica excluído do que eu deveria escrever; a relação entre esse argumento determinado e todas as suas possíveis variáveis e alternativas, todos os acontecimentos que o tempo e o espaço podem conter. É uma obsessão devoradora, destrutiva, que chega para me bloquear. Para combater tento limitar o campo do que devo dizer, e depois dividi-lo em campos ainda mais limitados, e depois subdividi-los de novo, e assim por diante. E então sou tomado por outra vertigem, a do pormenor do pormenor do pormenor, sou sugado pelo infinitesimal, do infinitamente pequeno, tal como antes me dispersava no infinitamente vasto."

Italo Calvino in, seis propostas para o próximo milénio
[Charles Eliot Norton Poetry Lectures]

02/03/12

ela e ele

© Eikoh Hosoe


Ambos estão convencidos
que os uniu uma paixão súbita.
É bela esta certeza,
mas a incerteza é mais bela ainda.

Julgam que por não se terem encontrado antes,
nada entre eles nunca ainda se passara.
E que diriam as ruas, as escadas, os corredores
onde se podem há muito ter cruzado?

Gostaria de lhes perguntar
se não se lembram —
talvez nas portas giratórias,
um dia, face a face?
algum “desculpe” num grande aperto de gente?
uma voz de que “é engano” ao telefone?
— mas sei o que respondem.
Não, não se lembram.

Muito os admiraria
saber que desde há muito
se divertia com eles o acaso.

Ainda não completamente preparado
para se transformar em destino para eles,
aproximou-os e afastou-os,
barrou-lhes o caminho
e, abafando as gargalhadas,
lá seguiu saltando ao lado deles.

Wislawa Szymborska

01/03/12

ele e ela

© Eikoh Hosoe | Kamaitachi #23, 1965

«Ele cravara-lhe as unhas no pescoço,
ela enroscava o corpo, como fazem os anjos nos
banquetes em honra dos heróis. Ele abria as asas,
protegendo-a, ela sugava-lhe o coração, entre
lágrimas, deixando-o marcado pelas garras.»

Jaime Rocha in, Zona de Caça