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23/12/12

moments of beauty and celebration


As I Was Moving Ahead Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty, 2000

"My film diaries 1970-1979: my marriage, children are born, you see them growing up. Footage of daily life, fragments of happiness and beauty, trips to France, Italy, Spain, Austria. Seasons of the year as they pass through New York. Friends, home life, nature, unending search for moments of beauty and celebration of life friendships, feelings, brief moments of happiness. The film is also my love poem to New York. It’s the ultimate Dogme movie, before the birth of Dogme." Jonas Mekas

20/12/12

há sempre mais

© Eikoh Hosoe, 1968

"Haja o que houver, há sempre mais. Aconteça o que acontecer, há sempre outra coisa a acontecer também." 

Susan Sontag, in Ao mesmo tempo

19/12/12

mudar de vida





O teatro é (deve ser) o que seja capaz de fazer o espectador pedir:
- Dê-me um bilhete para mudar de vida.

Gonçalo M. Tavares

18/12/12

porque o futuro

© Edward Hopper | Nighthawks, 1942


É absorvente,
descrever pinturas estáticas.
Estudiosos dedicam volumes a isso.


Mas nós estamos vivos,
cheios de memória e pensamento,
amor, por vezes arrependimento,
e por momentos temos um orgulho especial
porque o futuro grita em nós
e seu tumulto torna-nos humanos.

Adam Zagajewski

17/12/12

AMOUR

© Michael Haneke | Amour, 2012

Na morte, desfazemo-nos: os pedaços do que éramos
Começam a fugir uns dos outros para sempre
Sem ninguém ver. Não é mais que um olvido, é certo:
Já o tivemos antes, mas dessa vez ia acabar,
E combinava-se com um esforço sem igual
Para fazer desabrochar a flor de um milhão de pétalas
Que é estar aqui. Da próxima vez não se pode fingir
Que vai haver algo mais. E estes são os indícios:
Não saber como, não ouvir quem, já não ter
Força para escolher. Pelo ar deles, estão prontos para ir:
Cabelo de palha, mãos de sapo, cara de fruto seco -
                           Como podem não o saber?

Ser velho é talvez ter salas iluminadas
Dentro da cabeça e, lá dentro, gente a representar.
Gente que se conhece, mas cujo nome nos escapa;
Cada vulto responde a uma perda profunda, assomando
A uma porta conhecida, pousando uma vela, sorrindo
Das escadas, tirando um livro da estante; ou por vezes
Se as próprias salas, cadeiras e uma lareira acesa,
O vento no arbusto para lá da janela, ou a débil
Simpatia do sol na parede, num solitário
Fim de tarde de Verão, depois da chuva. É onde eles vivem:
Não aqui e agora, mas onde tudo aconteceu em tempos.
                            Por isso é que eles têm

Um ar de ausência perplexa, tentando estar lá
E contudo estando aqui. É que as salas vão-se afastando,
Deixando para trás um frio inepto e o atrito constante
Do ar respirado, enquanto eles, os velhos tolos,
De cócoras junto ao morro da extinção, não se apercebem
De como está próximo. Deve ser isto que os sossega:
O pico que se observa de onde quer que se vá
Para eles é uma elevação. Será que não adivinham
O que os puxa para trás, e como tudo acabará? Nem à noite?
Nem sequer quando vêm os desconhecidos? Nunca,
Ao longo de toda a horrível infância do avesso? Bom,
                            Havemos de o saber.

Philip Larkin

11/12/12

enquanto

© Estelle Valente | Gonçalo M Tavares, 09.12.2012
"A conferência que o Gonçalo M. Tavares deu, no domingo, a partir das 15h30 (mais coisa menos coisa), no S. Jorge, é um monumento. Um monumento de brilhantismo, de sagacidade, de intelecto a funcionar. Dei comigo a pensar que uma conferência do Gonçalo M. Tavares por mês faria mais pela prevenção da arterioesclorese e da alzheimer que qualquer porcaria de químicos para derreter a proteína ou lá o que é. Perdi imensas coisas do que ele disse. Porque ainda tentava apanhar o elevador avariado e a importância da avaria na qualidade da nossa existência, quando já ele saltitava sobre o círculo que representa a filosofia e continuamente e sempre à mesma distância, gira à volta daquilo que verdadeiramente importa e é essencial: o amor, o medo, a morte.

Antes porém de encerrar a palestra, Gonçalo M. Tavares trouxe Godard, mas deixou-nos com interrogação da sua própria lavra, absolutamente essencial, para introduzir a urgência, a urgência deste flash que é a vida: «O que vou fazer enquanto não morro?»" 

06/12/12

o importante é

© Oscar Niemeyer 
"Eis o que lhes devia dizer sobre a minha arquitectura, feita com coragem e idealismo, mas consciente de que o importante é a vida, os amigos e esse mundo injusto, que precisamos melhorar." 


Oscar Niemeyer, in As curvas do tempo - memórias

01/12/12

dez pessoas



Quarenta 
Mas, aos 40 anos, não compreendo esse medo de ficar sozinho, que me inquietava ainda aos 33. Ficamos sozinhos quando somos exigentes. Ficamos sozinhos quando não mentimos. Ficamos sozinhos quando defendemos as nossas convicções. É o preço que estou disposto a pagar. E há, digamos, dez pessoas de quem gosto, dez pessoas sobre quem não me enganei, e dez pessoas é um mundo.

Pedro Mexia, in Expresso 
(obrigada Dina)

29/11/12

suspender a noite e o coração

© Pedro Almodóvar | La Piel que Habito, 2011


é porque existe o desejo, o olfacto, e o medo,
e os vivos apaixonam-se por outros vivos,
e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos,
e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho,
e o quotidiano aí já não basta,
porque o coração tem em certos dias um orçamento incomportável

E não basta então a mulher que amamos,
nem os filhos
- os que nos vão sobrevive no tempo -
e é preciso sair, e não basta sair para a rua e correr,
é preciso sair dos ossos,
fugir do obrigatório, à casa,
encontrar dentro dos bolsos o bocado de uma carta, de um mapa,
fragmento que possa reconstruir o caminho para a casa da infância
onde Deus era chocolate e o resolvíamos
assim, de uma vez, porque o comíamos

Porque mais tarde crescemos e ganhámos
dinheiro, família, e alguns outros assuntos,
mas perdemos qualquer coisa de que é impossível falar,
de que não sabemos falar.

E é preciso isso tudo,
e por quase tudo o que faltou dizer,
é por isso que é bom, por vezes,
suspender a noite e o coração,
e obrigar o cérebro à paragem surpreendente.

E é por isso que é bom, por vezes,
ocuparmos o corpo no acto de sentar,
e pedir, então, à arte, à literatura, ao teatro,
que nos salve,
por enquanto,
antes de morrermos.

Gonçalo M. Tavares

da natureza


Música: Efterklang | Magic chairs, 2012 | Realização: Kristian Leth 


"O que me atrai é o ser humano. Carrascos ou vítimas, nós nunca somos só uma coisa. A natureza humana é complexa e, como artista, tenho a impressão que a minha função é iluminá-la. Filmo para conhecer o outro e a mim mesmo”  Lee Chang-dong

15/11/12

aprender o difícil

© Jorge F. Marques, 2012

"o homem que desce o caminho fácil deve também aprender o difícil, porque num qualquer momento é certo, precisará dele."  Gonçalo M. Tavares

07/11/12

nem sempre

 The Antlers | Hospice, 2009



"Nem sempre os vivos são fortes como alguns vivos são fortes."
Gonçalo M. Tavares

29/10/12

'You live and learn'



Terry Callier [24.05.1945 - 28.10.2012] & Massive Attack | Hidden Conversations, 2008

19/10/12

Sim, mas como se faz?

© Edward Hopper | Hotel room, 1931


"Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar. 
É preciso aceitar esta mágoa esta moínha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si, isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar."  
Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

observam-me #2

Tomas Tranströmer

"«A minha vida.» Quando penso estas palavras, vejo diante de mim um rasto de luz. Observando melhor, a luz tem a forma de um cometa, com uma cabeça e uma cauda. A extremidade mais luminosa, a cabeça, é a infância e a idade do crescimento. O núcleo, a parte mais densa, é a primeira infância, quando são determinados os traços principais da nossa vida. Tento recordar-me, tento chegar lá. Mas é difícil movimentarmo-nos nessas regiões muito condensadas, é perigoso, tenho a sensação de que chegaria muito próximo da morte. Mais adiante, o cometa dilui-se: é a parte mais comprida, a cauda. Torna-se cada vez menos denso, mas também mais largo. Encontro-me agora num ponto muito avançado da cauda do cometa; tenho sessenta anos no momento em que escrevo estas linhas."


Tomas Tranströmer, in As minhas lembranças observam-me

18/10/12

observam-me

Tomas Tranströmer aos seis anos

"O centro cívico, chamado Medborgarhuset, foi construído por volta de 1940. Um enorme cubo em pleno Soder, mas um edifício cheio de luz, moderno, funcional, que justificava todas as expectativas. Ficava a apenas cinco minutos da casa onde morávamos.

O centro cívico incluía uma piscina uma piscina pública e uma delegação da biblioteca municipal.
(...)
Escapulia-me para a biblioteca quase todos os dias. Mas as coisas não se passavam de forma inteiramente despreocupada. Acontecia, de vez em quando, eu querer ler livros que as senhoras da biblioteca não consideravam próprios para a minha idade.
(...)
Pior ainda era quando eu tentava entrar na secção dos adultos. Precisava de um livro que não existia na secção das crianças. Era retido logo na entrada.
(...)
Esta secção ficava paredes-meias com os banhos. Logo à entrada se sentiam os vapores da piscina e o cheiro a cloro que vinha dos respiradouros, e ouvia-se o eco das vozes lá dentro. Todas as instalações de banhos têm uma acústica magnífica. O templo da saúde e os livros eram vizinhos, que alegria!" 

Tomas Tranströmer, in "As minhas lembranças observam-me"




16/10/12

aplicado à vida

© Arno Rafael Minkkinen | Dalsnibba, Norway, 2006 


"A princípio, sabia o que tinha perdido, mas não o podia começar. Avancei às apalpadelas e o que surgiu foi a irrupção de um certo sentido de calma aplicado à vida"


Enrique Vila-Matas in, Diário Volúvel

como agarrar

© Arno Rafael Minkkinen | Sweden, 2007

"A vida é um objecto rudimentar, tosco,
disforme, que nunca os homens
entenderam como agarrar.
Ainda nem sequer perceberam qual o lado de cima
desse estranho objecto.
Ainda mal pousaste as mãos sobre a vida
e já a vida pousou fortemente as mãos sobre ti."

Gonçalo M. Tavares

03/10/12

'live and die on this day'

© Joe Carnahan | The Grey, 2011

"Ottway: Once more into the fray. Into the last good fight I'll ever know. Live and die on this day. Live and die on this day."

26/03/12

fazer falar o que não tem palavra

© Arthur Ou

"Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objectos, um catálogo de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis.

Oxalá fosse possível um obra concebida fora de si, uma obra que nos permitisse sair da perspectiva limitada de um eu individual, não só para entrar noutros eus semelhantes ao nosso, mas também para fazer falar o que não tem palavra, o pássaro que pousa no beiral, a árvore na Primavera e a árvore no Outono, a pedra, o cimento, o plástico..."

Italo Calvino in, seis propostas para o próximo milénio
[Charles Eliot Norton Poetry Lectures]