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25/07/14

© Luísa Ferreira | Nós, 2009
© Luísa Ferreira | Nós, 2009

"E agora também gosto daquelas pessoas que procuram remontar às raízes e para isso se deitam na erva fresca da manhã e contemplam o céu e as nuvens como se fosse a primeira vez e se tornam mais fortes na sua radicalidade inocente e acabam rondando à volta de alguma teoria da relatividade, que o mesmo é dizer que aprendem a olhar e a pensar de novo e começam uma vida nova." 

Enrique Vila-Matas, in Diário Volúvel

22/03/14

I believed that I wanted to be a poet

© Fernando | Évora, 2013


but deep down I wanted to be a poem.

Jaime Gil de Biedma

by 

Enrique Vila-Matas in Bartleby & Co.

07/03/13



Gonçalo M. Tavares parece fugido de um romance de [Raymond] Queneau. «É verdade. Foi de lá que fugi», dir-me-ia ele agora se pudesse saber o que estou a pensar. De certeza que ficaria delirante se soubesse que o imagino acabado de sair de umas páginas de Queneau. Tenho-o ao meu lado e, por muito real e bom amigo que seja, não consigo evitar que me recorde um homem desenhado. E creio que, se tivéssemos aqui absinto, até essa bebida também pareceria desenhada.
Tavares, jovem talento português, está a apresentar o sei livro O senhor Brecht aos jornalistas em Barcelona. Ao lado dele, tomo notas para o meu diário. Ouço-o falar de uma das suas personagens, desse homem tão bem desenhado que é o senhor Henri, que tem uma notável apetência pelo absinto e é um dos habitantes desse bairro de artistas que, livro atrás de livro, Tavares vai criando como se estivesse sempre em permanente voo imaginativo: um bairro portátil, uma espécie de Chiado literário onde compram pão e tomam aperitivo uma série de senhores curiosos, cada habitante de um livro breve e próprio: o senhor Juarroz, o senhor Calvino, o senhor Valéry, o senhor Brecht, o senhor Kraus. Não sei se serão 99 os senhores que acabarão por viver no bairro, no entanto sei, por exemplo, que o senhor Henri - amigo pessoal de Ícaro, tanto como eu sou amigo de Tavares - disse outro dia:
- Se um homem mistura absinto e realidade, obtém uma realidade melhor.
Claro que o senhor Henri - como Tavares, Ícaro e Queneau - ultimamente pede absinto «sem uma única gota de realidade, por favor». O senhor Henri considera que o absinto é o infinito.
- Outro infinito, por favor.

Enrique Vila-Matas, in Diário Volúvel

20/11/12

E, no meio do êxtase,

© Jorge F. Marques | Paris, 2012



"Com essa repentina liberdade de espírito, à espera do comboio, fiquei algum tempo sentado num banco da sala de espera, a ler a imprensa desportiva. Sentia-me felicíssimo só de pensar que me libertara da minha teoria. Disse para comigo que, ao longo da minha vida, tinha visto como caíam do ponto mais alto as crenças, modas e teorias literárias de que tivera notícia. E também pensei que, no fim de contas, soubera sempre que, se tivermos uma vida suficientemente longa, podemos ver muitas coisas, e o mesmo se podia dizer das expectativas. Crer numa só teoria seria sempre uma coisa totalmente suicida e, além do mais, ligeiramente estúpida, porque, para um tímido como eu, não podia existir nada tão irresponsável como pensar que era precisamente a nossa teoria válida.
Acabado de chegar à grande liberdade do espírito vago, disponível para tudo menos para outra teoria, subi, pouco depois do meio-dia, para o comboio que havia de me deixar em Barcelona. (...) Minutos depois, pela janela ficava literalmente extasiado a ver a paisagem (...). E, no meio do êxtase, só uma certeza; uma certeza como bálsamo secreto e último da minha condição de herói num conto intitulado La espera: a certeza de que a minha teoria de Lyon era idêntica à minha vida e à espera em que consistia essa vida e também à espera que habitava dentro dessa espera que, por sua vez, continha outra espera. Quer dizer que a minha teoria de Lyon não tinha sido mais do que uma acta lavrada com o único propósito de me libertar do seu conteúdo, talvez uma acta lavrada com o exclusivo propósito de escrever e perder países, de viajar e perder teorias, perdê-las todas."


Enrique Vila-Matas in, Perder Teorias

16/10/12

aplicado à vida

© Arno Rafael Minkkinen | Dalsnibba, Norway, 2006 


"A princípio, sabia o que tinha perdido, mas não o podia começar. Avancei às apalpadelas e o que surgiu foi a irrupção de um certo sentido de calma aplicado à vida"


Enrique Vila-Matas in, Diário Volúvel

12/10/12

um país

© Arno Rafael Minkkinen | Finland, 2009


"Esse país [Finlândia] é o menos corrupto do mundo (diga-se desde já) e encontra-se situado na primeira linha de crescimento, inovação, difusão tecnológica e protecção social. Conta com vinte orquestras sinfónicas para os seus cinco milhões de habitantes. São parcos em palavras, é verdade, mas comunicam com uma sensatez e inteligência inabituais nos países latinos. E, além disso, não são mais tristes do que um andaluz em plena borga. 
(...)
A existência das vinte orquestras sinfónicas é uma das chaves da sua prosperidade espiritual. Foram pioneiros no estabelecimento do sufrágio universal e também nas comunicações telefónicas (...). Não há, por outro lado, apagões e os comboios suburbanos funcionam com uma perfeição alucinante. Os aeroportos são um modelo de ordem, geometria, calma e transparência. Os políticos são muito eficazes e não aparecem na televisão, para poderem dispor de mais tempo para trabalhar.

(...) um país onde tudo é de uma normalidade esmagadora e onde, por muito que se diga, se soube sempre encontrar maneira para não ter de ficar estupidamente às escuras."


Enrique Vila-Matas in, Diário Volúvel

21/09/12

tenho a certeza

© Wong Kar-wai | In the mood for love, 2000


"[Isaki] Lacuesta tirou-me as dúvidas: «Gosto de todos os cineastas que se chamam Jean: Jean Vigo, Jean Renoir, Jean Cocteau, Jean Eustache, Jean Rouche, Jean-Luc Godard e Wong Kar-wai, porque tenho a certeza de que Wong quer dizer Jean em chinês.»"

Enrique Vila-Matas in, Diário Volúvel

20/09/12

amante das citações

© Patricia Almeida | Rui Catalão: Dentro das Palavras



"O luxo das citações, das linhas alheias que incluímos nos nossos próprios textos (...). Alguns dos meus patrícios odeiam as citações: não olham com bons olhos uma certa erudição e têm como estúpida palavra de ordem que «quando se escreve não se deve ficar a dever nada a ninguém». Amante das citações, continuo a caminhar por Paris sob a chuva, pelo cemitério laico de Père-Lachaise, deixando-me levar pelo inconsciente fluir dos dias de sempre.

(...)
Citar é respirar literatura para não se afogar entre tópicos castiços e recorrentes que nos ocorrem à caneta quando empenhamos na vulgaridade suprema de «não dever nada a ninguém». Porque, no fundo, quem não cita, não faz outra coisa a não ser repetir, mas sem o saber nem o escolher. «Quem cita», diz Savater, «assume, pelo contrário, sem circunlóquios, o nosso destino de príncipes que aprendemos tudo nos livros.»

Enrique Vila-Matas in, Diário Volúvel

inumeráveis

Enrique Vila-Matas

"Na realidade, nunca existiram mapas para os nossos inumeráveis labirintos."
in, Diário Volúvel

inesgotável


"o verdadeiro cientista é Franz Kafka. Nunca se prende a nenhuma verdade e, no entanto, tudo são verdades. É inesgotável. Estampam-se contra eles todos os que, ao querer interpretá-lo desta ou daquela maneira, reduzem a infinitude da sua obra. Só lhe faltou dizer que o verdadeiro saber consiste em medir a extensão da ignorância."

Enrique Vila-Matas in, Diário Volúvel

19/09/12

simples

© Fernando | Maria - Setembro, 2012

"E às vezes alguém, à beira do mar, frente ao Atlântico, escreve no seu diário uma página como esta interrogando-se se não acabará por encontrar nela emoções assombrosamente simples." 

Enrique Vila-Matas, Diário Volúvel

18/09/12

como se fosse a primeira vez

© Maria | Setembro, 2012

"Na minha nova vida - porque creio que nos últimos meses, ajudado pela abstemia que se seguiu ao meu colapso físico, passei a fazer uma nova, ou pelo menos uma vida mais serena -, interessam-me muito os seres que conseguem manter ou recuperar o límpido olhar belamente infantil sobre as coisas, do mesmo modo que me interessam os escritores de estilo ou pretensões vanguardistas que procuram fazer tábua rasa da grande rigidez da tradição acumulada e partir em busca de percepções novas, da atitude quase infantil que devolva à arte a facilidade de realização que teve nas suas origens. E agora também gosto daquelas pessoas que procuram remontar às raízes e para isso se deitam na erva fresca da manhã e contemplam o céu e as nuvens como se fosse a primeira vez e se tornam mais fortes na sua radicalidade inocente e acabam rondando à volta de alguma teoria da relatividade, que o mesmo é dizer que aprendem a olhar e a pensar de novo e começam uma vida nova." 

Enrique Vila-Matas in, Diário Volúvel

sei que dou vontade de rir...

© F.M. | Setembro, 2012



"Há um ano antes e um depois da minha catarse de semanas atrás. «Quando algo se conclui, devemos pensar que algo começa de novo», recordo ter-me dito então. E assim tem sido. A princípio, sabia o que tinha perdido, mas não o que podia começar. Avancei às apalpadelas e o que surgiu foi a irrupção de um certo sentido da calma aplicado à vida. Andava à demasiado tempo com a impressão de que a organização do mundo estava a atirar-me cada vez mais para um futuro de crescente velocidade que me roubava o presente e me obrigava a viver sempre no futuro, na vida que não existe. 


Era como se vivesse não para viver, mas para já estar morto. Agora tudo tem um outro ritmo, já vivo fora da vida que não existe. às vezes detenho-me a olhar para o curso das nuvens, olho tudo com curiosidade fleumática de diarista volúvel e passeante acidental: sei que dou vontade de rir mas pouco me importa." 

Enrique Vila-Matas in, Diário Volúvel

atentamente


© Maria Manuel Lacerda | Oficina do Livro


"Junho



Mudei de vida. Talvez obrigado pelas circunstâncias, mas o que é um facto é que mudei de vida. Recordo-me dos avisos que, no dia 29 de Junho de 2003, Bernardo Atxaga me enviara de New Hampshire. Conservei a sua carta e agora, relida durante estes dias de convalescença, o meu olhar repousa em certos conselhos amistosos nos quais me alertava sobre os excessivos riscos a que submetíamos as nossas existências. «Creio que chegou a hora de viver um pouco mais atentamente», dizia Atxaga na sua carta. E citava Nazim Himket, que num breve e intenso texto comentava que é preciso levar a sério o viver-se (...) Temos de saber - dizia Himket - que viver é a coisa mais real e mais bela. E não esquecer que viver é a nossa tarefa.


Enrique Vila-Matas in, Diário Volúvel