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18/05/14

© Henri Cartier-Bresson - Paris, 1968

"Tornamo-nos naquilo que somos por meio dos outros, e o nosso eu é poroso, não uma caixa selada. Se é verdade que começa como um mapa genético, trata-se de um mapa genético que se revela ao longo do tempo e somente em relação com o mundo. Os americanos agarram-se desesperadamente aos seus mitos de autocriação, ao individualismo implacável, hoje mais assente na economia de mercado do que no pioneirismo, à auto-ajuda, essa bizarra deturpação do faça-você-mesmo que transforma o ser humano num objecto que pode ser consertado com uma caixa de ferramentas e um manual de instruções. Não somos autores de nós mesmos, o que é diferente de dizer que não somos agentes ou que não temos responsabilidades - quer apenas dizer que tornamo-nos no que somos não escapa à relação."

Siri Hustvedt, in O meu pai, eu mesma - Granta 3, 2014

19/01/14

© Ernesto Bazan, 1998

"No início tudo estava vivo. Os mais pequenos objectos eram dotados de corações pulsantes, e até as nuvens tinham nomes. As tesouras caminhavam, os telefones e os bules eram primos direitos, os olhos e os óculos eram como irmãos. A face do relógio era uma face humana, cada ervilha na tua taça tinha uma personalidade diferente, e a grelha na frente do carro dos teus pais era uma boca sorridente com muitos dentes. As canetas eram aviões. As moedas eram discos voadores. Os ramos das árvores eram braços. As pedras pensavam e Deus estava em toda a parte.

© Henri Cartier-Bresson, 1962

Claro que o mundo era plano. Quando alguém te tentou explicar que a Terra era uma esfera, um planeta a orbitar o sol com mais oito planetas numa coisa chamada sistema solar, não conseguiste compreender o que o rapaz mais velho dizia. Se a Terra fosse redonda, então toda a gente abaixo do equador cairia, uma vez que era inconcebível que uma pessoa pudesse viver de cabeça para baixo. O rapaz mais velho tentou explicar-te o conceito de gravidade, mas tal também estava para lá da tua compreensão. Imaginaste milhões de pessoas a mergulhar de cabeça pela escuridão de uma noite infinita, omnívora. Se a Terra era de facto redonda, disseste a ti próprio, então o único sítio seguro para se estar era o Polo Norte.

© David Seymour, 1948

As estrelas, por outro lado, eram inexplicáveis. Não eram buracos no céu, nem velas, nem luzes eléctricas, não eram nada que se parecesse com o que conhecias."


Paul Auster, in Relatório do interior

15/11/13

© Henri Cartier-Bresson

"A sudden brain wave. The best and the most lasting friendship are based on admiration. This is the bedrock feeling that connects two people over the long term. You admire someone for what he does, for what he is, for how he negotiates his path through the world. Your admiration enhances him in your eyes, ennobles him, elevates him to a status you believe is above your own. And if that person admires you as well - and therefore enhances you, ennobles you, elevates you to a status he believes is above his own - then you are in a position of absolute equality. You are both giving more than you receive, both receiving more than you give, and in the reciprocity of this exchange, friendship blooms." 

Paul Auster, in Paul Auster & J.M.Coetzee: letters 2008 - 2011

30/10/13

© Henri Cartier-Bresson


"(...) e falamos, com um entendimento mútuo vindo do fundo do coração, como dois apaixonados de quem o mundo inveja não só o amor mas também a profunda amizade (...)". 

Orhan Pamuk, in A casa do silêncio

19/10/13

© Henri Cartier-Bresson


"Estamos felizes. (Silêncio.) O que é que fazemos agoraagora que estamos felizes?" 

Samuel Beckett, in À espera de Godot

24/03/13

© Henri Cartier-Bresson | Martine Franck, 1967


Não tenho planos, nem promessas, nem 
filhos que nos convidem para almoços 
de domingo - a minha ideia de família
resume-se a um retrato velho preso numa
gaveta; e do amor possível sei tão-só

o que li nos romances que me salvaram
da desordem quando o meu tempo
andava de feria em cicatriz. Mas guardo
ainda muitos por estrear para essa estante

que ergueste no corredor como uma casa
nova. E trago portas abertas no coração:

se ainda não sabias, és muito bem-vindo.

Maria do Rosário Pedreira

27/01/13

© Henri Cartier-Bresson, 1932

vivemos convivemos resistimos
cruzámo-nos nas ruas sob as árvores
fizemos porventura algum ruído
traçámos pelo ar tímidos gestos
e no entanto por que palavras dizer
que nosso era um coração solitário silencioso
silencioso profundamente silencioso
e afinal o nosso olhar olhava
como os olhos que olham nas florestas
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa
Nós tínhamos um nome para isto
mas o tempo dos homens impiedoso
matou-nos quem morria até aqui
E neste coração ambicioso
sozinho como um homem morre cristo
Que nome dar agora ao vazio
que mana irresistível como um rio?
Ele nasce engrossa e vai desaguar
e entre tantos gestos é um mar
Vivemos convivemos resistimos
sem bem saber que em tudo um pouco nós morremos



Ruy Belo

11/01/13

© Henri Cartier-Bresson, 1933


"Também eu sou culpado de alterar, distorcer e dissimular os factos - se é que existem «factos». Contudo, o meu esforço consciente tem-se orientado - talvez erradamente - na direcção oposta. Estou do lado da revelação, se não sempre do lado da beleza, da verdade, da sabedoria, da harmonia e da perfeição em constante evolução." 

Henry Miller, in Os livros da minha vida

27/12/12

a essência das coisas

© Henri Cartier-Bresson

"Voltei ao meu primeiro restaurante, ao restaurante dos meus 4 anos, relembrei de olhos brilhantes o meu pai, contei aos amigos a história que as paredes daquele restaurante já ouviram pela enésima, vi surgir, como uma estrela luzente, segura e brilhante, uma doce e querida embaixatriz que me encaminhará, durante o próximo ano, pelos  caminhos desconhecidos dos arquivos maus da torre do tombo, ouvi um fauno embaixador do botânico aconselhar-me a que o visite neste Inverno e que me deixe embalar pelos seus sons, a fim de escolher, no seu silêncio, a minha adoptada para a vida e  planeámos idas ao frio da Dinamarca e aos calores da Ásia. Brindámos só uma única vez àquilo que verdadeiramente importa e que raramente nos trai e sempre nos ampara: à amizade."

io, in amor e outros desastres

21/03/12

outros gostam muito


© Henri Cartier-Bresson | Martine Franck, 1967


Alguns gostam de poesia

Alguns —
quer dizer que nem todos.
Nem sequer a maior parte mas sim uma minoria.

Não contando as escolas onde se tem que,
e quanto a poetas,
dessas pessoas, em mil, haverá duas.

Gostam —
mas gosta-se também de sopa de esparguete,
dos galanteios e da cor azul,
do velho cachecol,
brindar à nossa gente,
fazer festas ao cão.

De poesia —
mas que é isso a poesia?
Muitas e vacilantes respostas
já foram dadas à questão.
Por mim não sei e insisto que não sei
e esta insistência é corrimão que me salva.

Wisława Szymborska