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12/10/15

© Fernando M. | Agosto, 2015


É misteriosa a forma como corpo e pensamento se entendem ou desentendem, como convivem e negoceiam. Também pertencemos ao nosso corpo.

Dulce Maria Cardoso

11/06/15

© Catrine Val | Philosophers


"De resto, o escritor faz-se como todas as pessoas se fazem: olhando o mundo como se fosse pela primeira vez e descobrindo no Tempo algo que pode ainda ser estreado."


Mia Couto, in Quando me fiz escritor? - Granta 4

09/06/15

© Anthony Hernandez | Landscapes for the Homeless


"O que aconteceu foi a pergunta. O que houve foi a capacidade de interrogar. A habilidade de questionar é o primeiro e o último modo de resistirmos à desumanização. Como dizia o meu filho: e era essa a história."

Mia Couto, in Cartaria - Granta 4

14/05/15

Granta Portugal | 5



Já morri duas vezes. Ou talvez mais. Sei umas quantas coisas sobre o assunto. Contudo, embotado, afásico, não sei como dizê-las. Também não é preciso. Já houve quem as dissesse por mim. Foram ditas mil vezes. Mil vezes mil. Inútil dizê-lo pior do que já outros antes. O mundo está cheio de redundância. Não há mal nenhum nisso, só cansaço.

Carlos Vaz Marques, in Editorial - Granta Portugal | 5

15/10/14

Granta Portugal | 4


Soube que ia ter mais um primo por volta dos cinco anos. Os meus tios só de longe a longe vinham á metrópole - era assim que se dizia na altura. Traziam-me, de cada vez, duas alegrias: a minha prima e um delicioso fruto oblongo e carnudo, que eu comia sempre muito devagar e de olhos fechados.

África era para mim a terra das mangas e o lugar de onde a minha prima chegava com histórias mirabolantes.
(...)
Que isto sirva de aviso: neste número da Granta não se pretende de modo algum retratar África. O que aqui temos - se me é permitido pilhar um titulo alheio - são partes de África.

Carlos Vaz Marques, in Editorial - Granta 4 

04/09/14

Granta 2 - Poder


31. Gosto da ideia de alguém chegar à cabeça de outro, bater três vezes antes de entrar e depois dizer: por favor, um texto sobre o poder.

Gonçalo M. Tavares, in Breves notas sobre o poder - Granta 2

02/09/14

© Inge Morath | Nova Iorque, 1957

A literatura é o único lugar em qualquer sociedade onde, na privacidade das nossas cabeças, podemos ouvir vozes que falam de tudo de todas as maneiras possíveis. A razão para preservar essa arena privilegiada não é satisfazer a vontade dos escritores para dizerem e fazerem o que entenderem. É porque nós, todos nós, leitores e escritores e cidadãos e generais e sacerdotes, precisamos desse pequeno quarto de aspecto irrelevante. Não precisamos de lhe chamar sagrado, mas precisamos de nos recordar de que é necessário.
(...)
Por esse mundo fora, nos lugares em que o pequeno quarto da literatura foi fechado, mais cedo ou mais tarde as paredes começaram a ruir.

Salman Rushdie, in Mas já nada é sagrado? - Granta 2

19/08/14

© Francesca Woodman 

"Chorei então um bocado, não por estar exausta, mas porque lágrimas ardentes me saltaram de súbito dos olhos e esborrataram o padrão do papel de parede. Vi Peggie embasbacado a olhar para mim, de boca aberta, e lamentei ter chorado. Passei o punho pelos olhos e avancei para a questão seguinte."

Hilary Mantel, in Abatido - Granta 3 

01/08/14

© Fernando | Bangkok, 2011


"A minha mãe sempre me disse que substitutos era coisa que não havia. Tudo é intrinsecamente único e diferente de qualquer outra coisa. Tudo acontece apenas uma vez e a felicidade não se repete."

Hilary Mantel, in Abatido - Granta 3

23/07/14

© Richard Misrach 


"Depois deixávamos os pés marcados na areia virgem junto ao voo das aves"

Ruy Belo, in [foi um verão exaltante] - Granta 3

16/07/14

Tilda Swinton

"Tinha os olhos azuis, claros. Durante vários minutos, parece que só lhe vi os olhos e me agarrei a eles para poder respirar. Sorria, num rasgo cinico e macilento de quem sabe mais do que revela, de quem revela mais do que diz." 

Raquel Ribeiro, in É perigoso ser feliz duas vezes - Granta II

11/07/14

O corpo também nos individualiza.

© Maria - Museu Nacional de Arte Antiga, 2014


"E parece existir de forma independente do pensamento. Autónomo. É misteriosa a forma como corpo e pensamento se entendem ou desentendem, como convivem e negoceiam. Também pertencemos ao nosso corpo."

Dulce Maria Cardoso, in Em busca d'eus desconhecidos - Granta I

10/07/14

© Alex Gozblau

"Nunca tinha sido levada assim na horizontal, é levemente nauseante."

Alexandra Lucas Coelho, in Laparotomia 

18/05/14

© Henri Cartier-Bresson - Paris, 1968

"Tornamo-nos naquilo que somos por meio dos outros, e o nosso eu é poroso, não uma caixa selada. Se é verdade que começa como um mapa genético, trata-se de um mapa genético que se revela ao longo do tempo e somente em relação com o mundo. Os americanos agarram-se desesperadamente aos seus mitos de autocriação, ao individualismo implacável, hoje mais assente na economia de mercado do que no pioneirismo, à auto-ajuda, essa bizarra deturpação do faça-você-mesmo que transforma o ser humano num objecto que pode ser consertado com uma caixa de ferramentas e um manual de instruções. Não somos autores de nós mesmos, o que é diferente de dizer que não somos agentes ou que não temos responsabilidades - quer apenas dizer que tornamo-nos no que somos não escapa à relação."

Siri Hustvedt, in O meu pai, eu mesma - Granta 3, 2014

13/05/14

Não somos seres estáticos. Envelhecemos, mudamos.

© Mark Seliger - Antony Hegarty


"Nos meus romances, escrevi como mulher e como homem. Escrevi como pai. Escrevi como filho. No romance mais recente, tornei-me no meu próprio irmão imaginário, o rapaz que acabou por nunca chegar à minha família. Uma jovem mulher veste-se como um homem. Coloca a sua armadura e vagueia pela rua. Um homem pinta o seu autor-retrato enquanto mulher. Um homem veste-se de mulher e encontra-se a si mesmo."

Siri Hustvedt, in O meu pai, eu mesma - Granta 3, 2014

10/05/14

só as casas explicam que exista uma palavra como intimidade



"Celebremos as casas: casulos de memória onde se guardam ilusões que o tempo desfez, gestos que não se repetirão, fragmentos e ruínas do que fomos. Aquilo que somos."

Carlos Vaz Marques, in Editorial Granta Portugal | 3

09/02/14

Pina Bausch - Blaubart, 1977 

"É misteriosa a forma como corpo e pensamento se entendem ou desentendem, como convivem e negoceiam. Também pertencemos ao nosso corpo."

Dulce Maria Cardoso, in Em busca d'eus desconhecidos 

24/07/13


© Tamsin Swait

"Nesta profissão, temos uma liberdade diferente do resto das pessoas, não estamos confinados a um «eu». Somos umas macieiras capazes de dar andorinhas. Ou leões. O que quisermos. Até maçãs."

Afonso Cruz, in Jazz, rosas e andorinhas - Granta I

22/07/13

© Christophe Kutner 


"Tenho muitas vezes a sensação de não pertença. Percebo que de facto só pertenço aos meus pensamentos.
Pertencemos aos nossos pensamentos. Para escaparmos do que somos temos de pensar de outra maneira. Mas não temos controlo em muito do que pensamos. Estamos condenados ao que somos capazes de pensar.
E só não digo que somos os nossos pensamentos porque também existe o corpo. O corpo também nos individualiza. E parece existir de forma independente do pensamento. Autónomo. É misteriosa a forma como corpo e pensamento se entendem ou desentendem, como convivem e negoceiam. Também pertencemos ao nosso corpo."

Dulce Maria Cardoso, in Em busca d'eus desconhecidos - Granta I

25/05/13

Granta I | Maio, 2013

"A vida é um tédio quando não há histórias para ouvir nem nada para ver. Quando eu era miúdo, se não estávamos à janela a observar a rua e os transeuntes ou nas casas do prédio em frente, ouvíamos o rádio, em cima do qual um pequeno cão de porcelana dormia perpetuamente." 

Orhan Pamuk, in Granta I