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03/04/17

© Vivian Maier 

Agora penso. Porque fazemos nós alguma ideia de como a felicidade e a infelicidade são distribuídas? Elas surgem no interior do humano, tal como bem pensa a maioria das pessoas no nosso tempo racional, e somos nós mesmos que criamos a nossa felicidade ou infelicidade, a questão é o que se entende por 'nós mesmos' num tempo assim - se não é apenas uma concentração de células que concretizam um código genético e que é modificado por experiências, que são activadas ou desactivadas por pequenas tempestades electroquímicas, de maneira que algo determinado seja sentido, pensado, dito, feito? E que as consequências exteriores disto criam uma nova tempestade interior, e uma subsequente série de sentimentos, pensamentos, verbalizações, gestos? 

Karl Ove knausgård, in No Outono

09/02/17

© AP | Queda do Muro de Berlim, 1989


Uma vez que a vida é movimento, acontece regularmente uma inadequação entre o que nós devemos fazer e o que queremos fazer, que se manifesta num desejo de ultrapassar os limites [molduras] que se nos põem. Se se der largas a esse desejo, surge um período de desordem antes de serem estabelecidos novos limites para a vida. É assim na vida individual, chama-se revolta adolescente, e na vida cultural, chama-se revolta de uma geração, revolução ou guerra. O que há de comum em todos estes movimentos é o anseio pela autenticidade, pelo verdadeiro, que simplesmente é o lugar em que as representações da realidade são uma e a mesma coisa. Ou por outras palavras, uma vida, uma existência, um mundo sem molduras, sem limites.


Karl Ove knausgård, in No Outono

04/02/17

© Daniela Spector, 2017


"... dou comigo a pensar no ditador, que num dia controla tudo poderosamente e que no seguinte, quando o povo se revolta, fica desmascarado e nu."

Karl Ove knausgård, in No Outono

09/01/17

© Bernardo Martins

Esse momento não foi o início de nada, nem sequer de um conhecimento, também não foi o fim de nada, e talvez fosse isso o que pensei quando estava a escavar o buraco há uns dias, que ainda estou a meio de qualquer coisa, e sempre estarei.

Karl Ove knausgård, in No Outono

01/06/16

Newfoundland.

© Arno Rafael Minkkinen

The silence was not oppressive; it was open.
But not to us, I thought for some reason. The silence had always been likethishere, long before people existed and would remain so long after they had disappeared. Lying here in this mountain bowl, with the sea spread out before it.
Where did it end actually? America? Canada?
Yes, that had to be it. Newfoundland.

Karl Ove knausgård, in My Struggle: 4 - Dancing in the dark

09/02/16

© Stuart Franklin

Mal sabia que cada traço daquela paisagem e cada ser humano que a habitava ficariam em mim como recordações permanentes, com a nitidez e a exactidão de uma espécie de ouvido absoluto da memória.

Karl Ove knausgård, in A minha luta: 3 - A ilha da infância

01/02/16

© Richard Linklater


Quando voltei a mim, ouvia-se ao longe "More Than This" dos Roxy Music: olhei para o tecto da tenda e, por algum motivo que não compreendia, mas aceitei, senti-me mais feliz que nunca.

Karl Ove knausgård, in A minha luta: 3 - A ilha da infância


21/01/16

© Per Maning

... porque o sentido não é alguma coisa que recebemos, mas alguma coisa que damos. A morte torna a vida sem sentido porque tudo aquilo que nos esforçámos sempre por alcançar acaba quando a vida acaba, mas faz também com que a vida tenha sentido, porque a sua presença torna a pouca que temos indispensável, torna precioso cada momento. 

Karl Ove knausgård, in A minha luta: 2 - Um homem apaixonado

15/01/16

© Fernando M. | Este nosso mundo, 2011

Compreender o mundo exige que se mantenha uma certa distância dele. Ampliamos coisas que são demasiado pequenas para serem vistas a olho nu, como moléculas e átomos. Reduzimos coisas que são demasiado grandes, como nuvens, deltas e constelações. Só fixamos o mundo quando o temos ao alcance dos nossos sentidos. A essa fixação chamamos conhecimento. Durante a nossa infância e juventude lutamos para manter a distância correcta das coisas e dos fenómenos. Lemos, aprendemos, experimentamos, corrigimos. Então, um dia, chegamos ao ponto em que todas as distâncias necessárias foram determinadas, todos os sistemas foram estabelecidos. É aí que o tempo começa a acelerar. Já não encontra qualquer obstáculo, está tudo determinado, o tempo passa rapidamente pelas nossas vidas, os dias sucedem-se num piscar de olhos, e, antes que nos apercebamos do que está acontecer, temos quarenta, cinquenta, sessenta anos...

Karl Ove knausgård, in A minha luta: 1- A morte do pai

06/01/15

© Thomas Wågström | Neckar (Necks)


The Other Side of the Face

Karl Ove Knausgård 

02/01/15

© Beowulf Sheehan/PEN American Center | Karl Ove Knausgård 

A escrita trouxe-lhe o sentido da vida?

Quando o meu pai morreu foi como se o mundo tivesse parado. Só deixei de chorar quando ele foi enterrado. A vida passou a ser algo importante. É o que acontece sempre com a morte e com o amor. Damos valor à vida quando nos apaixonamos ou quando alguém morre, tudo passa a ter outra intensidade. Mas apesar de lhe darmos uma nova importância, podemos continuar sem lhe encontrar um sentido. A leitura, a escrita e a arte, acabaram por dar sentido à minha vida. Não sou religioso. Mas acho que este sentimento trazido por estas coisas se deve assemelhar de alguma maneira ao sentir religioso: como uma espécie de esplendor da existência que nos põe em conexão com os outros, com o mistério que eles são.

Karl Ove Knausgård, aqui