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31/01/13

© Wang Qingsong, 2003


"Julgo que estão redondamente enganados aqueles que afirmam que os alicerces do conhecimento ou da cultura, ou quaisquer outros alicerces, são necessariamente aqueles clássicos que se encontram em qualquer lista dos «melhores» livros. Sei que há várias universidades que baseiam todo o seu programa neste tipo de listas pretensiosas. Na minha opinião, cada homem deve procurar as suas próprias fundações. Se cada um de nós é um ser individual, isso só se deve à nossa singularidade. Seja qual for o material que influenciou a nossa cultura, cabe a cada homem decidir por si mesmo os elementos que, desse material, deverão penetrar e moldar o seu destino pessoal. 
(...)
Seria preferível começarmos pelo nosso tempo e familiarizarmo-nos antes de mais com o mundo em que vivemos e participamos. Não devíamos ter medo de ler de mais ou de menos. Seria aconselhável entregarmo-nos à leitura da mesma forma que nos alimentamos ou que fazemos exercício. O bom leitor será atraído pelos livros bons. Descobrirá com os seus contemporâneos o que é inspirador ou fecundo, ou meramente aprazível, na literatura do passado. Seria desejável que tivesse o prazer de fazer estas descobertas por si, à sua maneira. O que tem valor, encanto, beleza ou sabedoria, não pode ser perdido ou esquecido. Mas as coisas podem perder todas estas qualidades se nos arrastarem para elas pelos cabelos."


Henry Miller, in Os livros da minha vida

04/01/13

© Wang Qingsong | Follow Him, 2010


"Nesta época, em que se acredita existir um atalho para tudo, a maior lição a aprender é que o caminho mais difícil é, a longo prazo, o mais fácil. Tudo o que é apresentado nos livros, tudo o que parece terrivelmente vital e significativo, não passa de uma parcela ínfima daquilo que lhe deu origem e que está ao alcance de toda a gente. Toda a nossa teoria educacional se baseia na ideia absurda de que devemos aprender a nadar em terra antes de nos atirarmos à água. Isto aplica-se ao estudo das artes, bem como à busca do conhecimento. O homem continua a ser ensinado a criar estudando as obras de outros homens ou fazendo planos e esboços que não estão destinados a materializar-se. A arte da escrita é ensinada na sala de aulas em vez de ser no âmago da vida." 

Henry Miller, in Os livros da minha vida

14/06/12

nascemos curiosos e inteligentes

© Wang Qingsong, Follow Him, 2010

"afoguem professores e autores e teóricos e simpatizantes de gramática, antes que não reste um único ser humano a conseguir entender-se nesta língua que eu aprendi na rua e nos livros (mas não nos livros de gramática)

segue-se um texto de teolinda gersão, a partir dos problemas enfrentados pelos seus netos, em nome dos quais ela escreve." Rui Catalão

«Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: no ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”.

Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum,o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: “Ó João, onde está a tua gramática?” Respondo: “Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.” »