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03/07/13

do tempo

© Jacques Henri Lartigue | J.H. Lartigue e Richard Avedon


"os primeiros seres da terra a terem consciência do tempo também foram os primeiros a saber sorrir." 


Vladimir Nabokov, in Na outra margem da memória

03/04/13

© Abbas Kiarostami, 2008

"Amar com toda a alma e deixar o resto ao destino era a simples regra que ela observava. «Vot zapomni» [lembra-te disto], dizia ela em tom conspirador à medida que chamava a minha atenção para esta ou aquela coisa entre as que amávamos... - ou a cotovia que se eleva no céu de requeijão e soro de um dia encoberto de Primavera, ou o relâmpago de um dia de calor que fotografava uma fileira distante de árvores em plena noite, ou a palmatória de uma folha de ácer na areia escura, ou a pegada cuneiforme de um passarinho na neve recente. Sentindo, talvez, que faltavam poucos anos para a parte tangível do seu mundo perecer, cultivava uma extraordinária consciência dos vários marcos do tempo distribuídos pelos nossos campos. Acariciava o seu próprio passado com o mesmo fervor retrospectivo que à sua imagem e ao meu passado agora empresto. E foi assim que herdei, de certa maneira, um esquisito simulacro - a beleza das coisas intangíveis, de uma propriedade irreal - que iria promover-me um treino excelente para resistir a futuras perdas. "

Vladimir Nabokov, in Na outra margem da memória

01/04/13

© Francesc Català-Roca 

"os primeiros seres da terra a terem consciência do tempo também foram os primeiros a saber sorrir." 


Vladimir Nabokov, in Na outra margem da memória

22/03/13

© Lars von Trier

"O berço baloiça por cima de um abismo e o senso comum diz-nos que a nossa vida mais não é do que uma brecha de luz entre duas eternidades de treva. Apesar de gémeas idênticas, vulgar será que o homem olhe com maior calma o abismo pré-natal do que o outro para onde se dirige (a qualquer coisa como quatro mil e quinhentas batidas de coração por hora). Sei no entanto de um jovem cronofóbo que entrou numa espécie de pânico quando viu pela primeira vez cenas filmadas em sua casa, semanas antes de ter nascido. Viu um mundo praticamente igual - a mesma casa, as mesmas pessoas - mas reparou que ele próprio ainda lá não estava nem havia quem lamentasse a sua ausência. De relance viu a mãe a dizer adeus na janela do andar de cima, e esse estranho gesto perturbou-o como se fora uma misteriosa despedida. Porém, o que mais susto lhe meteu foi a imagem de um carro de bebé com ar pretensioso, com o ar abusivo de um esquife, novinho em folha e parado no vestíbulo; também ele vazio, como se os seus próprios ossos, nessa corrida inversa de factos, se tivessem desintegrado."

Vladimir Nabokov, in Na outra margem da memória