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05/08/14

© Teresa Nabais 

Não poderíamos viver no mundo sem a distância interior que nos separa das coisas. Se tudo fosse plenamente presente, não seríamos o que somos e se ainda fôssemos seres humanos estaríamos tão emaranhados na espessura do real que não poderíamos distinguir os seres e as coisas e, como numa densa floresta em que não houvesse caminhos nem intervalos entre as árvores, não poderíamos sequer dar um passo. A separação é inerente à condição humana desde o momento em que o feto é expulso do ventre materno.

António Ramos Rosa, in A infatigável superficialidade da existência - Prosas seguidas de diálogos

04/07/14

© Teresa Nabais 

«Encontrei um sítio para me esconder», escreveu o meu pai, «e chorei até não poder mais.» Com essa carta tinha recebido outra de Margaret. No cimo da página, ela citava Coríntios 12:9: «Porque é na fraqueza que a minha força se revela totalmente. Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas.»

Siri Hustvedt, in Elegia para um Americano

30/06/14

© Teresa Nabais


"Não há uma fronteira nítida entre a imaginação e a recordação. Quando oiço um paciente, não estou a reconstruir os «factos» de uma história, estou atento aos padrões, à cadeia de emoções e às associações que nos podem orientar no sentido de evitar a repetição do sofrimento e que nos podem conduzir a uma compreensão articulada. Como Inga disse, nós construímos as nossas narrativas e essas histórias criadas são inseparáveis da cultura que vivemos. Às vezes, no entanto, há fantasias, delírios ou invenções inequívocas que se fazem passar por autobiografia. Torna-se necessário, então, fazer uma distinção mínima entre o que são factos e o que são ficções. A dúvida é um sentimento desconfortável..."

Siri Hustvedt, in Elegia para um Americano