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21/11/12

io, este poema é para ti

© F.M. | Valado dos Frades, 2012


"Porque a amizade (já o disse antes) não é uma dádiva do céu, é uma espécie de tesouro escondido onde só se alcança depois de ter vencido caminhos e tempestades, e ter enfrentado monstros e gigantes, e ter atravessado florestas e subido montanhas, mil vezes soçobrando e mil vezes recomeçando de novo a partir da solidão e do exílio. E porque cada um de nós pode, acerca dos amigos, dizer como nos ahadith: "Eu era um tesouro escondido e por eles fui revelado..."  Manuel António Pina, in Por outras palavras 

12/11/12

Pessoas e afectos.

F.M. | "We all stand together", 11.11.2012


"(...) e eis que fui para onde queria ir: ouvir uma bela história de amor. Onde se conheceram? Como namoraram? Onde casaram? E o mais belo dos sorrisos e encantos saiu do anfitrião para ir ao recôndito da casa buscar a foto da sua amada, aos 17 anos, quando a conheceu, volvidos que estão 43. Se não estava ainda feliz – que estava – fiquei então feliz. Só se pode ser salvo pelo amor e o que aquele belo cozinheiro do melhor arroz de polvo do mundo me disse foi que, por ela, terminou um curso que teimava em não terminar, mudou o rumo à vida de estroina e boémia para definitivamente assentar. E ali estava sem mácula, sem mágoa, na felicidade imensa de envelhecer ao lado da mulher amada. Bela, imensamente bela e amada.
(...)


Foi uma tarde imensa... em que fomos deixando perpassar, por entre o encadeamento das palavras, os inexplicáveis e indizíveis afectos. E dali, entrámos numa outra casa. Uma casa bonita que não só fala, como exala o perfume das pessoas bonitas que sempre por lá viveram. Fomos até lá para ver os livros do avô. E não só me deram o privilégio de passear os meus dedos por cada um deles, como me deixaram que trouxesse tanta coisa bonita. Todas lidas pelo avô que, agora, quando escrevo, vejo a sorrir como quando a ele me dirigi, levando alto, nos braços, como se fosse a voar, a cabeça loura, em turra, do bisneto. Pessoas e afectos. A cerca segura e quente do que ainda me faz sentir viva...


E depois há pessoas bonitas e pronto." io, in Amor e outros desastres

03/11/12

io, este poema é para ti.

© Jorge F. Marques | Izumi Ueda Yuu, 2012



Uma pequenina luz bruxuleante e muda 

como a exactidão como a firmeza 

como a justiça. 
Apenas como elas. 
Mas brilha. 
Não na distância. Aqui 
no meio de nós. 
Brilha

Jorge de Sena

[este poema é para ti]

01/11/12

da beleza

© Maria | Valado dos Frades, 2012

Gostava dessa espécie de beleza

que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrebalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.

Rui Pires Cabral

17/10/12

os gatos

© Maria | Gata Camila, 2012

“Of all God's creatures there is only one that cannot be made the slave of the lash. That one is the cat. If man could be crossed with the cat it would improve man, but it would deteriorate the cat.”  
Mark Twain, Notebook, aqui