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29/01/16


Massive Attack | Ritual Spirit, 2016

- "Estás doido? Todo o teu mundo está a ruir, a partir-se, e tu estás à procura de uma palavra?" Depois, percebi que estava certo - é necessário insistir na fiabilidade das palavras. O mundo parecia um erro terrível, mas se eu encontrasse a palavra certa, então encontraria uma coisa certa num mundo que tem sido errado. 

David Grossman

19/11/12

o tempo que resta...

© Elia Suleiman | O Tempo que resta, 2009


David Grossman: (...) De momento, identifico dois problemas principais: o primeiro é a nossa relação com os palestinianos que se encontra num impasse muito bizarro. Há a ilusão de que nada acontece; parece que os palestinianos estão, de certo modo, a colaborar com a ocupação israelita, mas não há diálogo entre nós e os palestinianos. Israel continua a expandir os colonatos nos territórios ocupados - ainda recentemente foi construída uma universidade [no colonato de Ariel], o que é perturbador. O segundo problema é a situação económica, que é também um mistério porque, por um lado, Israel tem uma economia que prospera e escapou à crise mundial, e, no entanto, há tantas pessoas em Israel que são pobres e não têm meios de sustento; e as pessoas não estão a ver a relação entre a pobreza e o gigantesco investimento que é feito na colonização dos territórios ocupados. Israel comporta-se como um lunático que, ignorando o perigo, caminha à beira de um telhado e aqui adormece, sem saber como vai despertar." 
in, jornal Público, 2012

16/11/12

e, subitamente

© Ingmar Bergman | Da Vida das Marionetas, 1980


"E, subitamente, vemos como duas pessoas gentis, que gostam uma da outra, se transformam em lobos. Sei isto pela minha experiência: quando deixamos de ser nós próprios, tornamo-nos representantes de algo maior do que nós, seja uma posição política, religiosa ou nacional. Deixamos de ser humanos para nos tornarmos panfletos. E os panfletos são terríveis. Deixamos de ser nós próprios. "A situação" confisca-nos, usa-nos e abusa-nos." David Grossman in, jornal Público

14/11/12

mas se eu encontrasse a palavra certa

© Jorge F. Marques |  Vila Nova de Foz Côa, 2012

 

David Grossman: "No início desta entrevista, perguntou-me se este livro [Até ao fim da terra] mudou a minha vida e percebeu como foi difícil, para mim, responder. Agora já posso dizer-lhe que (pausa), depois de Uri cair [morrer], há seis anos, voltei a pegar no livro para o acabar. E fi-lo porque para mim escrever é sempre uma maneira de compreender a minha vida e de exprimir o que eu sinto e como devo agir. Há seis anos, só me restava uma opção: acabar este livro. Tinha de permanecer leal à história, sem a alterar devido ao que acontecera. Havia uma lógica na história - uma lógica no final. E eu já tinha definido o final. Lembro-me de, após a partida do meu filho, eu estar sentado no meu estúdio à procura da palavra certa e, de repente, interpelar-me: "Estás doido? Todo o teu mundo está a ruir, a partir-se, e tu estás à procura de uma palavra?" Depois, percebi que estava certo - é necessário insistir na fiabilidade das palavras. O mundo parecia um erro terrível, mas se eu encontrasse a palavra certa, então encontraria uma coisa certa num mundo que tem sido errado. Insisti em fazer estas pequenas coisas no caos que me rodeava. Senti-me como uma pessoa cuja casa é destruída por um sismo, e que vai até aos destroços e tenta reconstruir a casa, colocando um tijolo sobre outro tijolo, sobre outro tijolo... Para mim, cada palavra era um tijolo. Foi a maneira de eu regressar à vida. Após algumas semanas ou meses, eu já era capaz de fantasiar de novo, de infundir vida, amor e paixão nas minhas personagens. De sentir como elas estavam vivas. Para mim, foi como escolher a vida, a partir da gravidade do desespero e da dor. Esta é a resposta à sua primeira pergunta." in, jornal Público