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25/04/16

© Ana Hatherly | 25 de Abril de 1974, Lisboa

e "(...) de súbito, o mundo abriu-se, e o horror, que parecia irremediável e sempiterno, desmoronou-se de um momento para o outro sob os nossos olhos, deixando à vista o tamanho, desmesurado como nunca, da esperança.
Foram breves e deslumbradas horas, e talvez tenha valido a pena ter vivido só por elas. Nunca, como nesse dia, estivemos tão próximos uns dos outros nem fomos tão frágeis e vulneráveis. (...) E só tínhamos uma palavra desconhecida para o que os nosso olhos viam e o nosso coração sobressaltadamente experimentava: «liberdade». Murmurávamo-la para nós mesmos e gritávamo-la uns para os outros como quem revela um segredo longo tempo reprimido, descobrindo alvoraçadamente algo novo e espantoso: não tínhamos medo."

Manuel António Pina, in Por outras palavras & mais crónicas de jornal

21/12/15

Zaza Urushadze | Tangerines, 2013


Porque a amizade (já o disse antes) não é uma dádiva do céu, é uma espécie de tesouro escondido onde só se alcança depois de ter vencido caminhos e tempestades, e ter enfrentado monstros e gigantes, e ter atravessado florestas e subido montanhas, mil vezes soçobrando e mil vezes recomeçando de novo a partir da solidão e do exílio. 

Manuel António Pina, in Por outras palavras 

16/04/15

... when another writer in another house is not free, no writer is free.

© Philip Grey

My experience as a guide, and other like experiences in later years, taught me something that we all know but that I would like to take this opportunity to emphasize. Whatever the country, freedom of thought and expression are universal human rights. These freedoms, which modern people long for as much as bread and water, should never be limited by using nationalist sentiment, moral sensitivities, or—worst of all—business or military interests. If many nations outside the West suffer poverty in shame, it is not because they have freedom of expression but because they don’t. As for those who emigrate from these poor countries to the West or the North to escape economic hardship and brutal repression—as we know, they sometimes find themselves further brutalized by the racism they encounter in rich countries. Yes, we must also be alert to those who denigrate immigrants and minorities for their religion, their ethnic roots, or the oppression that the governments of the countries they’ve left behind have visited on their own people.
But to respect the humanity and religious beliefs of minorities is not to suggest that we should limit freedom of thought on their behalf. Respect for the rights of religious or ethnic minorities should never be an excuse to violate freedom of speech. We writers should never hesitate on this matter, no matter how “provocative” the pretext. Some of us have a better understanding of the West, some of us have more affection for those who live in the East, and some, like me, try to keep our hearts open to both sides of this slightly artificial divide, but our natural attachments and our desire to understand those unlike us should never stand in the way of our respect for human rights.
(...)
I have personally known writers who have chosen to raise forbidden topics purely because they were forbidden. I think I am no different. Because when another writer in another house is not free, no writer is free. 

Orhan Pamuk, in Freedom to write

16/02/15

© Owen Humphreys

A palidez me toma e não é por medo: é que também eu estou sob a influência da tempestade que se forma. A intranquilidade do mundo. Os pássaros fogem.

Clarice Lispector, in A Descoberta do Mundo

12/02/15

© Owen Humphreys

Mas um dia vou falar do mar de um modo melhor. Aliás, acho que vou começar um pouquinho agora. Vou falar do cheiro do mar que às vezes me deixa tonta.

Clarice Lispector, in A Descoberta do Mundo

07/02/15

Em quem pensar, agora, senão em ti?

07.02.1935 - 09.05.2010

"Os meus mortos levaram consigo, de mim, palavras, memórias, dias, lugares, desígnios, incertezas; os seus olhos guardam para sempre o meu rosto, os seus ouvidos a minha voz. Também eu morri com eles, e também eu, o que fiquei, me perdi fora de mim. Onde quer que eles estejam agora, quem quer que sejam agora, estou, pois, junto deles. E pertencem-me, tanto quanto provavelmente eu lhes pertenço." 

Manuel António Pina, in Por outras palavras

06/02/15

© Sergio Larraín


Mas um dia ainda hei de ir, sem me importar para onde o ir me levará.


Clarice Lispector, in A Descoberta do Mundo

29/01/15

© Ferdinando Scianna


"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida."


Clarice Lispector, in A Descoberta do Mundo 

26/01/15

© Raymond Depardon


E à terra retornaremos. Ah, por que não nos deixaram descobrir sozinhos que à terra retornaremos: fomos avisados antes de descobrir.

Clarice Lispector, in A Descoberta do Mundo