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06/09/12

em volta de nós

© Joshua Benoliel | início século XX


Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
...
Um crepúsculo terno
E doce diluía,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos...
Erravam, pelo Azul,
Canções do fim do dia.
Canções que, de tão longe,
O vento vagabundo
Trazia, na memória...
...
Olhavas para mim,
Às vezes, distraída,
Como quem olha o mar,
À tarde, dos rochedos...
E eu ficava a sonhar,
Qual névoa adormecida,
Quando o vento também
Dorme nos arvoredos.
Olhavas para mim...
...
Tudo, em volta de nós,
Tinha um aspecto de alma.
Tudo era sentimento
...
Teixeira de Pascoaes in, Elegia do Amor

05/09/12

não sei de grupos

© Joshua Benoliel | início século XX


"O comerciante Benito Prada, interrogado pelo inspector-chefe da delegação da Pide, esteve trinta segundos insuportáveis a olhá-lo nos olhos, mastigando a sua antipatia, e depois respondeu:
«Grupos? Eu sei da minha vida, não sei de grupos.»
Bernardini insistiu. Estava furioso e tinha a ponta do lápis semi-enterrada na palma da mão direita.
«Chamei-o ao meu gabinete por uma questão de bom senso: queira ou não queira, o sr. Prada é o cidadão espanhol mais importante da cidade. Que me diz deste atentado ignóbil?»
«Que falhou, caralho!»

Fernando Assis Pacheco, in Trabalhos e Paixões de Benito Prada

é um hábito

© Joshua Benoliel | início século XX


«Convenceram-no disso, sr. Prada?»

«Eu penso por mim, é um hábito desde pequeno. Não me venha com partidos que bate ao postigo errado.»

Fernando Assis Pacheco in, Trabalhos e Paixões de Benito Prada

19/04/12

νερό

© Joshua Benoliel


"Foi a primeira palavra grega que aprendi: nero (água), e que bela palavra é."

Henry Miller in, O colosso de Maroussi

13/04/12

escrevo-te

© Joshua Benoliel
© Joshua Benoliel
© Joshua Benoliel



(a carta da paixão)
Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascentes da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração.

(...)

A idade que escrevo

escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore.


Herberto Helder in, Photomaton & Vox, 1979

11/04/12

inventar poemas

© Joshua Benoliel


Ao atravessar a fronteira
entre
beleza e banalidade
sobresai um homem
cansado de inventar poemas.

Não tem nada a declarar
com a excepção de alguma
trivialidade inútil.

 Daniel Hevier

09/04/12

fora de si

© Joshua Benoliel
O regresso

Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.

Entra entao pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E como agora por fim um pão primeiro
sem saber de palavras estrangeiras na boca.

Manuel António Pina



23/03/12

triste e alegre

 © Joshua Benoliel | Lisboa, início do século XX


"Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui..."


Álvaro de Campos in, Lisbon Revisited