Mostrar mensagens com a etiqueta por outras palavras. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta por outras palavras. Mostrar todas as mensagens

03/07/17

Porque continuam os homens a escrever poesia?

© Jim Jarmusch | Paterson, 2016

E porque continuam outros homens, desrazoavelmente, a escutá-la?

A poesia não tem respostas (às vezes, pobre dela, nem perguntas...), não oferece nada, consolo, não promete coisa nenhuma. É apenas um fio desprovido e solitário, vindo de lugares antiquíssimos dentro dos homens e persistindo obstinadamente no meio da vozearia do comércio e da gritaria dos media. Que haja quem continue à escuta dessa longínqua voz pode significar que talvez haja esperança e que talvez, afinal, não sejamos inteiramente miseráveis.

Manuel António Pina, in Por outras palavras

25/04/16

© Ana Hatherly | 25 de Abril de 1974, Lisboa

e "(...) de súbito, o mundo abriu-se, e o horror, que parecia irremediável e sempiterno, desmoronou-se de um momento para o outro sob os nossos olhos, deixando à vista o tamanho, desmesurado como nunca, da esperança.
Foram breves e deslumbradas horas, e talvez tenha valido a pena ter vivido só por elas. Nunca, como nesse dia, estivemos tão próximos uns dos outros nem fomos tão frágeis e vulneráveis. (...) E só tínhamos uma palavra desconhecida para o que os nosso olhos viam e o nosso coração sobressaltadamente experimentava: «liberdade». Murmurávamo-la para nós mesmos e gritávamo-la uns para os outros como quem revela um segredo longo tempo reprimido, descobrindo alvoraçadamente algo novo e espantoso: não tínhamos medo."

Manuel António Pina, in Por outras palavras & mais crónicas de jornal

21/12/15

Zaza Urushadze | Tangerines, 2013


Porque a amizade (já o disse antes) não é uma dádiva do céu, é uma espécie de tesouro escondido onde só se alcança depois de ter vencido caminhos e tempestades, e ter enfrentado monstros e gigantes, e ter atravessado florestas e subido montanhas, mil vezes soçobrando e mil vezes recomeçando de novo a partir da solidão e do exílio. 

Manuel António Pina, in Por outras palavras 

24/04/14

Onde estava você no 25 de Abril?

© Alfredo Cunha | 25 de Abril de 1974


«Onde estava você no 25 de Abril?» Na verdade, ninguém pode dizer onde estava no 25 de Abril. Porque estivemos todos num sítio indizível e indiscernível, algures fora de nós (ou talvez dentro de nós).
Uma manhã despertámos e o sonho (para alguns o pesadelo...) era do lado de cá. As coisas, os rostos, as ruas, os nomes, pareciam todos os mesmos, mas algo fundamental tinha mudado radicalmente à nossa volta, sem compreendermos bem o quê. Tentámos cegamente ver no meio de tanta súbita luz com os olhos cheios ainda de escuridão, e muitos dos acidentes (de percurso e de discurso) desses dias tiveram por causa desse deslumbramento encadeamento. Imagine-se o que é, de repente, ao fim de 48 anos de sisudez, (...). Tínhamos adormecido num país e acordado (se, de facto, acordáramos) noutro, próximo e espantoso, uma espécie de heterónimo onde até nós nos parecíamos estranhos, um mundo, ou algo como um mundo, "indiscutível e inexplicado / sem saber-viver mas cheio de alegria de viver / sóbrio e embriagado / nocturno e diurno / sólito e insólito / e belo como tudo" como Prévert disse da lanterna mágica de Picasso.
A língua alemã tem uma palavra para essa sensação ao mesmo tempo de reconhecimento e de estranheza (de "estranhidão", se houvesse tal palavra), unheimlich; e o inglês tem eery, ou weird. O português que falávamos (...) não tinha palavras para isso, e a única que érmos capazes de pronunciar, e onde julgávamos que cabia então tudo, era «liberdade». Por isso a gritámos na rua, sem sabermos o que dizíamos. E o nosso coração corria desabaladamente, tropeçando, à frente da nossa razão, completamente aturdida no meio de uma formidável overdose de contraditória e convulsa realidade. Quem se surpreenderá que, durante esse dia absoluto, não soubéssemos onde estávamos nem quem éramos e flutuássemos, náufragos perdidos e felizes, meio metro acima da existência?

Manuel António Pina, in Por outras palavras & mais crónicas de jornal

07/02/14

"Os meus mortos levaram consigo, de mim, palavras, memórias, dias, lugares, desígnios, incertezas; os seus olhos guardam para sempre o meu rosto, os seus ouvidos a minha voz. Também eu morri com eles, e também eu, o que fiquei, me perdi fora de mim. Onde quer que eles estejam agora, quem quer que sejam agora, estou, pois, junto deles. E pertencem-me, tanto quanto provavelmente eu lhes pertenço." 

Manuel António Pina, in Por outras palavras 



07.02.1935 - 09.05.2010

25/11/13

© Fernando | Autumn so well done, 2013

"Há dias em que até o cronista mais cínico se reconcilia com o mundo. O mundo é o mesmo, as pessoas são as mesmas, a existência não deixou de ser a tragédia absurda de sempre. Porém, de súbito, no meio do Inverno, o Sol rompe gloriosamente entre as ramagens descarnadas das árvores, o céu é alto e limpo, a luz quase magoa, de tão branca, e então, insensatamente, tudo, mundo e existência, parece fazer sentido.
Talvez, quem sabe?, o coração precise de mais um pretexto para repousar por um momento da desesperança e os olhos para se abrirem para o calor das coisas e para a alegria. Mas em dias assim dir-se-ia que tudo se conjuga numa imensa conspiração contra o cepticismo."


Manuel António Pina, in Por outras palavras

09/05/13

07.02.1935 - 09.05.2010

"Os meus mortos levaram consigo, de mim, palavras, memórias, dias, lugares, desígnios, incertezas; os seus olhos guardam para sempre o meu rosto, os seus ouvidos a minha voz. Também eu morri com eles, e também eu, o que fiquei, me perdi fora de mim. Onde quer que eles estejam agora, quem quer que sejam agora, estou, pois, junto deles. E pertencem-me, tanto quanto provavelmente eu lhes pertenço." 

Manuel António Pina, in Por outras palavras

06/01/13


© Alberto Martins | Macedo de Cavaleiros, 2013


Salvação pela poesia

Provavelmente nenhum verso salvará o mundo. Mas quem / é hoje capaz de salvar o mundo / ou apenas mudar o sentido / da vida de alguém? A pergunta de Eugénio [de Andrade] vem em O Sal da língua e, de uma forma ou de outra, todos os poetas um dia a fizeram: para quê? E, no entanto, os homens continuam a escrever poesia. Porque precisam os homens de poesia? Donde vem à poesia o misterioso prestígio, mistura de desprezo e de temor reverencial, de que parece gozar?
(...)
Em tempos desalmados como os nossos, talvez as pessoas procurem na poesia algo parecido com uma alma, em tempos de usuários a gratuitidade escandalosa dos sentidos e dos sentimentos. Poderá a poesia dar-lhes o que procuram? Infelizmente a poesia não é, receio bem, uma espécie de Igreja do Reino de Deus, nem os poetas são, pobre deles, sacerdotes ou profetas (talvez já tenham sido, mas também ele perderam literalmente a graça).


De qualquer modo, se dum soneto ou de uma ode não vier bem ao mundo, mal também não há-de vir."


Manuel António Pina, in Por outras palavras

"Que procuram hoje as pessoas na poesia? Que fez com que tantas gente tivesse saído de casa numa noite fria de Dezembro para ouvir poesia? E, no entanto, se perguntássemos a qualquer dessas pessoas o que é a poesia, ninguém saberia provavelmente responder. 

Em tempos como estes, de usura, há algo de inquietante e de escandaloso no mistério gratuito da poesia. Porque continuam os homens a escrever poesia? E porque continuam outros homens, desrazoavelmente, a escutá-la?

A poesia não tem respostas (às vezes, pobre dela, nem perguntas...), não oferece nada consolo, não promete coisa nenhuma. É apenas um fio desprovido e solitário, vindo de lugares antiquíssimos dentro dos homens e persistindo obstinadamente no meio da vozearia do comércio e da gritaria dos media. Que haja quem continue à escuta dessa longínqua voz pode significar que talvez haja esperança e que talvez, afinal, não sejamos inteiramente miseráveis."

Manuel António Pina, in Por outras palavras

04/01/13

de todo o coração


© Adriano Miranda | Manuel António Pina


Não de todo o coração


Deixem-me parafrasear Beethoven: a bondade é a única forma de superioridade (não gosto da palavra, mas é a que usa Beethoven). A primeira vez que ouvi isto - e ouvi-o como se ouvem coisas que sempre soubemos mas não sabíamos que sabíamos -, perguntei-me se conheceria alguma boa pessoa. E conheço. Pelo menos, três ou quatro (sou um privilegiado).
(...)
Há quase 50 anos, num jornal que agora é apenas nebulosamente memória, com o belíssimo nome de O fala barato e editado na Primavera, no Verão, no Outono e no Inverno com textos de crianças (...), um miúdo de 12 anos, o Ferraz, escrevia: «Eu quero ser bom, / mas não de todo o meu coração.» Porque a bondade é intolerante, é uma fortaleza contra os maus.
(...)
Por outro lado, a bondade, como a beleza e como a justiça, pode ser terrivelmente destruidora, a bondade pode ser má. (...) Ferraz não lera decerto Dostoievski, mas aprendera, no confuso lugar da sua jovem vida, e à própria custa, que a bondade não é inocente e é necessário ser bom «mas não de todo o coração»: «Se eu for bom / andaria sempre alegre / dava sempre o que tivesse / a esses rapazes que mo não agradeciam / isso para mim era como se me calcassem».
(...)
Em tempos participei na Feira do Livro do Porto num debate subordinado ao tema «Devem os escritores ser boas pessoas?». Na altura acreditava que um escritor deve ser apenas bom escritor, hoje hesito. Já uma vez escrevi: precisamos mais de boas pessoas («não de todo o coração») do que de bons escritores. Bons escritores há muitos, sou capaz de enumerar de cabeça uma ou duas centenas deles. Boas pessoas não, e bons escritores boas pessoas menos ainda (eu é que sei!).


Manuel António Pina, in Por outras palavras

23/11/12

o calor das coisas

                                                         © Maria | Lisboa, outono de 2012



"Há dias em que até o cronista mais cínico se reconcilia com o mundo. O mundo é o mesmo, as pessoas são as mesmas, a existência não deixou de ser a tragédia absurda de sempre. Porém, de súbito, no meio do Inverno, o Sol rompe gloriosamente entre as ramagens descarnadas das árvores, o céu é alto e limpo, a luz quase magoa, de tão branca, e então, insensatamente, tudo, mundo e existência, parece fazer sentido.
Talvez, quem sabe?, o coração precise de mais um pretexto para repousar por um momento da desesperança e os olhos para se abrirem para o calor das coisas e para a alegria. Mas em dias assim dir-se-ia que tudo se conjuga numa imensa conspiração contra o cepticismo."

Manuel António Pina, Por outras palavras

palavras, memórias, dias, lugares...


                                                             © F.M. | Cemitério, 2011

"Os meus mortos levaram consigo, de mim, palavras, memórias, dias, lugares, desígnios, incertezas; os seus olhos guardam para sempre o meu rosto, os seus ouvidos a minha voz. Também eu morri com eles, e também eu, o que fiquei, me perdi fora de mim. Onde quer que eles estejam agora, quem quer que sejam agora, estou, pois, junto deles. E pertencem-me, tanto quanto provavelmente eu lhes pertenço." 

Manuel António Pina in, Por outras palavras

Como poderia conformar-me?

© F.M. | Cemitério, 2011


© F.M. | Cemitério, 2011

"Há de facto na morte algo de injusto e de inaceitável, e as nossas lágrimas são, acho eu, tanto de revolta quanto de dor. Assisti outro dia ao enterro do Manuel Hermínio Monteiro. Meteram-no num buraco fundo e imenso e, enquanto o sol declinava lentamente atrás dos pinheiros, três homens despejaram sobre ele terra húmida e pedras. Como poderia conformar-me?" 

Manuel António Pina in, Por outras palavras

22/11/12

deslumbradamente descobrir

                                                    © Maria | Lisboa, outono de 2012

"São seres silenciosos que, a nosso lado, partilham quotidianamente a mesma única vida, a sua e a nossa vida. Mal damos por elas, as árvores, tão comum e familiar é a sua antiquíssima presença perto de nós, e tão anónima. A maior parte das vezes pouco mais somos capazes de dizer do que 'árvore', ou 'árvores', porque também as nossas palavras se foram, pouco a pouco, tornando silenciosas. E, no entanto, cada árvore, como cada um de nós, é um ser absoluto e irreptível, idêntico apenas mutantemente a si mesmo, uma vida única com uma história única, um passado para sempre atado, de forma única, ao nosso próprio passado. (...) O que há, como dizia o outro, é pouca gente para dar por isso. E para deslumbradamente descobrir que o belo é útil por ser belo."

Manuel António Pina in, Por outras palavras