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04/02/16


Tindersticks | The waiting room, 2016


"(...) sim, sempre com a minha mão no teu ombro, agarrados um ao outro, apoiando-nos um ao outro, fugimos, como dois amantes solitários e desesperados neste universo aterrador e cheio de fealdade, que só o amor permite enfrentar, e pronto, deixamos tudo para trás de nós, caminhamos sob as árvores, pelas ruas vazias, silenciosas e melancólicas, olhamos para as luzes coloridas dos restaurantes e dos cafés, ao longe, e falamos, com um entendimento mútuo vindo do fundo do coração, como dois apaixonados de quem o mundo inveja não só o amor mas também a profunda amizade (...)".

Orhan Pamuk, in A casa do silêncio

01/02/16

© Richard Linklater


Quando voltei a mim, ouvia-se ao longe "More Than This" dos Roxy Music: olhei para o tecto da tenda e, por algum motivo que não compreendia, mas aceitei, senti-me mais feliz que nunca.

Karl Ove knausgård, in A minha luta: 3 - A ilha da infância


29/01/16


Massive Attack | Ritual Spirit, 2016

- "Estás doido? Todo o teu mundo está a ruir, a partir-se, e tu estás à procura de uma palavra?" Depois, percebi que estava certo - é necessário insistir na fiabilidade das palavras. O mundo parecia um erro terrível, mas se eu encontrasse a palavra certa, então encontraria uma coisa certa num mundo que tem sido errado. 

David Grossman

27/01/16

© Harry Gruyaert


Não vou defender as escolhas que fiz. Se não foram práticas, a verdade é que eu não queria ser prático. O que eu queria era experiências novas. Queria sair para o mundo e pôr-me à prova, saltar de uma coisa para outra, explorar o mais que pudesse. E desde que mantivesse os olhos abertos, achava que, independentemente do que me acontecesse, seria útil e ensinar-me-ia coisas que nunca conhecera antes. Isto poderá parecer um procedimento um bocado antiquado, e talvez tenha sido. Jovem escritor despede-se da família e dos amigos e parte para lugares desconhecidos para descobrir de que é feito. Para o melhor ou para o pior, duvido que qualquer outro caminho tivesse sido conveniente para mim. Tinha energia, uma cabeça fervilhante de ideias e pés ansiosos por andar. Dado o tamanho do mundo, a última coisa que desejava era jogar pelo seguro.

Não me custa descrever estas coisas e recordar como me fizeram sentir. A complicação só começa quando pergunto por que motivo as fiz e senti o que senti.

Paul Auster, in Da mão para a boca

21/01/16

© Per Maning

... porque o sentido não é alguma coisa que recebemos, mas alguma coisa que damos. A morte torna a vida sem sentido porque tudo aquilo que nos esforçámos sempre por alcançar acaba quando a vida acaba, mas faz também com que a vida tenha sentido, porque a sua presença torna a pouca que temos indispensável, torna precioso cada momento. 

Karl Ove knausgård, in A minha luta: 2 - Um homem apaixonado

15/01/16

© Fernando M. | Este nosso mundo, 2011

Compreender o mundo exige que se mantenha uma certa distância dele. Ampliamos coisas que são demasiado pequenas para serem vistas a olho nu, como moléculas e átomos. Reduzimos coisas que são demasiado grandes, como nuvens, deltas e constelações. Só fixamos o mundo quando o temos ao alcance dos nossos sentidos. A essa fixação chamamos conhecimento. Durante a nossa infância e juventude lutamos para manter a distância correcta das coisas e dos fenómenos. Lemos, aprendemos, experimentamos, corrigimos. Então, um dia, chegamos ao ponto em que todas as distâncias necessárias foram determinadas, todos os sistemas foram estabelecidos. É aí que o tempo começa a acelerar. Já não encontra qualquer obstáculo, está tudo determinado, o tempo passa rapidamente pelas nossas vidas, os dias sucedem-se num piscar de olhos, e, antes que nos apercebamos do que está acontecer, temos quarenta, cinquenta, sessenta anos...

Karl Ove knausgård, in A minha luta: 1- A morte do pai

21/12/15

Zaza Urushadze | Tangerines, 2013


Porque a amizade (já o disse antes) não é uma dádiva do céu, é uma espécie de tesouro escondido onde só se alcança depois de ter vencido caminhos e tempestades, e ter enfrentado monstros e gigantes, e ter atravessado florestas e subido montanhas, mil vezes soçobrando e mil vezes recomeçando de novo a partir da solidão e do exílio. 

Manuel António Pina, in Por outras palavras 

17/12/15

© René Groebli

"assim descobrirá a beleza de partes do seu corpo às quais não prestava atenção até agora, e ficará surpreendida com isso."

Junichiro Tanizaki in, A Confissão Impudica

03/12/15

...I say thank you but no... no thank you.

Letters Live | Kylie Minogue, 2015 


To all those at MTV,

I would like to start by thanking you all for the support you have given me over recent years and I am both grateful and flattered by the nominations that I have received for best male artist. The air play given to both the Kylie Minogue and P. J. Harvey duets from my latest album murder ballads has not gone unnoticed and has been greatly appreciated. So again my sincere thanks.
Having said that, I feel that it's necessary for me to request that my nomination for best male artist be withdrawn and furthermore any awards or nominations for such awards that may arise in later years be presented to those who feel more comfortable with the competitive nature of these award ceremonies. I myself, do not. I have always been of the opinion that my music is unique and individual and exists beyond the realms inhabited by those who would reduce things to mere measuring. I am in competition with no-one.
My relationship with my muse is a delicate one at the best of times and I feel that it is my duty to protect her from influences that may offend her fragile nature.

She comes to me with the gift of song and in return i treat her with the respect I feel she deserves - in this case this means not subjecting her to the indignities of judgement and competition. My muse is not a horse and I am in no horse race and if indeed she was, still i would not harness her to this tumbrel - this bloody cart of severed heads and glittering prizes. My muse may spook! May bolt! May abandon me completely!
So once again, to the people at MTV, I appreciate the zeal and energy that was put behind my last record, I truly do and say thank you and again I say thank you but no... no thank you.


Yours sincerely, 
Nick Cave 
21 oct 1996

09/11/15

"Mev-lut!"

It was a voice full of love, the voice of someone who had read the letters he'd sent during his military service, a trusting voice. Mevlut remembered those letters now, hundreds of them, each written with genuine love and desire; he remembered how he had devoted his entire being to winning over that beautiful girl, and the scenes of hapiness he'd conjured in his mind. Now, at last, he'd managed to get the girl. He couldn't see much, but in that magical night, he drew like a sleepwalker toward the sound of her voice.
...
© Philippe Halsman

...
Mevlut got out and walked toward the back in the darkness. As he was shutting the door on the girl, there was a flash of linhtning, and for a moment, the sky, the mountains, the rocks, the trees - everything around him - lit up like a distant memory. For the first time, Mevlut got a proper look at the face of the woman he was to spend a lifetime with.

He would remember the utter strangeness of thar moment for the rest of his life.

Orhan Pamuk, in A Strangeness in My Mind

03/11/15

 © Martin Parr / Magnum Photos, 1975


Só de vez em quando os seus pensamentos perdiam-se num nevoeiro de suave melancolia.

Robert Musil

26/10/15

© Toby Harvard

Não me comovi. Comovido já eu estava: com as coisas, comigo, com a chuva sobre a cidade.


Herberto Helder

22/10/15

© Martin Parr / Magnum Photos | Tokyo, 2000


O homem prático pede que o avisem quando alguma coisa muda. Um poeta como Auden, ao contrário, insiste em avisar o mundo de que algumas coisas não mudam e que esse é, afinal, o seu fascínio.

Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Eliot e as conferências

12/10/15

© Fernando M. | Agosto, 2015


É misteriosa a forma como corpo e pensamento se entendem ou desentendem, como convivem e negoceiam. Também pertencemos ao nosso corpo.

Dulce Maria Cardoso

07/09/15

© André Kertesz


Claro, dirão, ler é bom para os sentimentos, para os abanar: por favor, não introduza dados quantitativos no prazer da leitura.
Porém, não esquecer: o que faz cada um com o que leu à velocidade que leu? Paisagens e sítios de chegada. Contabilidade económica da leitura.
(Não podemos ler tudo. Somos mortais, meu caro)

Gonçalo M. Tavares, in Breves notas sobre ciência, o medo e as ligações

21/08/15

© Fernando M. | Lisboa, 2015



Põe uma folha em branco na mesa à sua frente e escreve estas palavras com a sua caneta. Foi. Nunca mais voltará a ser.

Paul Auster, in Inventar a solidão

20/08/15

© Enzo Sellerio



O arrependimento só devia ser permitido aos mortos. Os vivos podem sempre agir. Corrigir.

Dulce Maria Cardoso, in O chão dos pardais

19/08/15

© Bernardo Martins, 2015


O mundo começava com uma chegada, que era uma partida. Com uma viagem. É ali: lugar a que mais tarde viria a dar um nome. Um lugar que começou a crescer, até não haver lugar algum. Ou só a indiferença de todos os lugares...

Rui Nunes, in Barro

18/08/15

© Harry Callahan


Não sei há quanto tempo isso foi nem sei mais nada sobre o que se passou depois. Nós, os mortos, não sabemos mais do que sabíamos durante a nossa existência terrena e o nosso testemunho é exactamente igual ao que diríamos se fôssemos vivos.

Teresa Veiga, in Gente melancolicamente louca

17/08/15

© Gabor Szilasi | Lake Balaton, 1954


O tempo confunde-nos, não é? Os físicos sabem brincar com ele, mas o resto de nós tem de contentar-se com um presente que passa a correr e se transforma num passado incerto e, por mais baralhado que esse passado possa estar na nossa cabeça, estamos sempre a mover-nos inexoravelmente em direcção a um fim.

Siri Hustvedt, in Verão sem homens