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23/11/12

Como poderia conformar-me?

© F.M. | Cemitério, 2011


© F.M. | Cemitério, 2011

"Há de facto na morte algo de injusto e de inaceitável, e as nossas lágrimas são, acho eu, tanto de revolta quanto de dor. Assisti outro dia ao enterro do Manuel Hermínio Monteiro. Meteram-no num buraco fundo e imenso e, enquanto o sol declinava lentamente atrás dos pinheiros, três homens despejaram sobre ele terra húmida e pedras. Como poderia conformar-me?" 

Manuel António Pina in, Por outras palavras

22/11/12

hei-de passar um fio


© Fjorge | Serra do Marão, 1989


... hei-de passar um fio através dos meus poemas para que o tempo
e os acontecimentos fiquem unidos,
E todas as coisas do universo sejam milagres perfeitos, cada um tão
profundo como os outros.

Não irei escrever poemas que se refiram a partes,
 Mas hei-de escrever poemas, canções, pensamentos que se refiram
ao todo,
E não hei-de cantar referindo-me a um dia, mas sim referindo-me
a todos os dias,
E não hei-de fazer um poema ou a mínima parte de um poema
que não se refira à alma.

Porque, após ter olhado para os objectos do Universo, vi que não
existe um, nem uma partícula de um que não se refira à
alma.

Walt Whitman

24/10/12

eu jamais seria eu

©  Fjorge | Casa de Serralves, 2007


"morreste-me. Mas a memória guarda-me o teu cheiro, as tuas mãos e o teu sorriso. Estás em nós e eu estou em ti. Eu jamais seria eu sem a tua presença constante na minha vida. Comparência que eu gostaria de poder prolongar. Mantenho a memória acesa com pedaços de imagens que me fazem sorrir. 


Deixaste-te ficar em tudo... os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo isto é agora pouco para te conter. Agora, és o rio e as margens e a nascente; és o dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a sua pele."


José Luís Peixoto in, morreste-me

22/10/12

o que sou



Tomas Tranströmer

"Sentimo-nos sempre mais novos do que somos. Trago em mim todos os meus rostos anteriores, como a árvore tem os anéis da sua idade. O que sou é a soma de todos esses rostos. O espelho só vê o meu rosto mais recente, mas eu conheço todos os anteriores." 

Tomas Tranströmer, in As minhas lembranças observam-me

21/10/12

um dia chegou ao fim

© Edward Hopper | Night-Windows, 1928

"O inverno aproximava-se do fim, e os dias alongaram-se. Foi então que se deu o milagre de a escuridão na minha vida começar também a recuar. Paulatinamente. Demorei algum tempo a tomar consciência do facto. Uma noite, na primavera, apercebi-me de que a angústia era agora marginal.

(...)

Chegado o momento de ir para casa com a noite clara, tive a sensação de que não precisaria de enfrentar os meus horrores quando chegasse.

Mas foi um acontecimento na minha vida. Talvez o mais importante. Contudo, um dia chegou ao fim."


Tomas Tranströmer, in As minhas lembranças observam-me

19/10/12

observam-me #2

Tomas Tranströmer

"«A minha vida.» Quando penso estas palavras, vejo diante de mim um rasto de luz. Observando melhor, a luz tem a forma de um cometa, com uma cabeça e uma cauda. A extremidade mais luminosa, a cabeça, é a infância e a idade do crescimento. O núcleo, a parte mais densa, é a primeira infância, quando são determinados os traços principais da nossa vida. Tento recordar-me, tento chegar lá. Mas é difícil movimentarmo-nos nessas regiões muito condensadas, é perigoso, tenho a sensação de que chegaria muito próximo da morte. Mais adiante, o cometa dilui-se: é a parte mais comprida, a cauda. Torna-se cada vez menos denso, mas também mais largo. Encontro-me agora num ponto muito avançado da cauda do cometa; tenho sessenta anos no momento em que escrevo estas linhas."


Tomas Tranströmer, in As minhas lembranças observam-me

18/10/12

observam-me

Tomas Tranströmer aos seis anos

"O centro cívico, chamado Medborgarhuset, foi construído por volta de 1940. Um enorme cubo em pleno Soder, mas um edifício cheio de luz, moderno, funcional, que justificava todas as expectativas. Ficava a apenas cinco minutos da casa onde morávamos.

O centro cívico incluía uma piscina uma piscina pública e uma delegação da biblioteca municipal.
(...)
Escapulia-me para a biblioteca quase todos os dias. Mas as coisas não se passavam de forma inteiramente despreocupada. Acontecia, de vez em quando, eu querer ler livros que as senhoras da biblioteca não consideravam próprios para a minha idade.
(...)
Pior ainda era quando eu tentava entrar na secção dos adultos. Precisava de um livro que não existia na secção das crianças. Era retido logo na entrada.
(...)
Esta secção ficava paredes-meias com os banhos. Logo à entrada se sentiam os vapores da piscina e o cheiro a cloro que vinha dos respiradouros, e ouvia-se o eco das vozes lá dentro. Todas as instalações de banhos têm uma acústica magnífica. O templo da saúde e os livros eram vizinhos, que alegria!" 

Tomas Tranströmer, in "As minhas lembranças observam-me"




15/10/12

vivia imerso

© The Family of Children, 1977


"O perigo de ser considerado estranho perturbava-me fortemente porque, no meu íntimo, desconfiava que o era. Vivia imerso em interesses que nenhum rapaz normal teria. Frequentava as aulas de desenho extracurriculares e desenhava cenas subaquáticas: peixes, ouriços-do-mar, caranguejos, búzios. A professora comentou em voz alta que os meus desenhos eram muito «especiais», e o pânico surgiu novamente. Havia uma categoria de adultos insensíveis que estavam sempre a apontar-me como sendo diferente. Na realidade, os meus colegas eram mais tolerantes. Eu não era popular, mas também não era perseguido." 

Tomas Tranströmer, in As minhas lembranças observam-me

09/05/12

agitam-se as recordações

Como se desenha uma casa

Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,
a mãe para sempre morta.

Anoiteceu, apagamos a luz e, depois,
como uma foto que se guarda na carteira,
... iluminam-se no quintal as flores de macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.

Protege-te delas, das recordações,
dos seus ócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que -perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.

Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.

Manuel António Pina

07/02/12

sinto tanto a tua falta


07.2.1935 - 09.5.2010


"Sinto tanta falta das tuas palavras.

O entardecer, em vagas de luz, espraia-se na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilho alvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as pálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais."

José Luís Peixoto in, Morreste-me





23/12/11

morreste-me


"morreste-me. Mas a memória guarda-me o teu cheiro, as tuas mãos e o teu sorriso. Estás em nós e eu estou em ti. Eu jamais seria eu sem a tua presença constante na minha vida. Comparência que eu gostaria de poder prolongar. Mantenho a memória acesa com pedaços de imagens que me fazem sorrir.
Deixaste-te ficar em tudo... os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo isto é agora pouco para te conter. Agora, és o rio e as margens e a nascente; és o dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a sua pele."


José Luís Peixoto in, morreste-me


19/11/11

Nunca


e "o mundo nunca está completo:
faltam pessoas que nos morreram."


Gonçalo M. Tavares

10/05/11

Morrer gregamente



li algures que os gregos antigos...
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?

quando alguém morre também quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?

e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?


os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda á pergunta grega,
pode manter-se a paixão como fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?

Herberto Helder, in A Faca Não Corta O Fogo
 

09/05/11

Ela...


07.02.1935 - 09.05.2010

06/05/11

Ela morreu

Ela morreu Como morre no Oriente a nuvem vermelha ao romper do dia,
A nuvem de beleza imensa que o sol inveja
E em glória se alevanta para roubar
A sua cor.

Ela morreu Como morre o clarão breve e fugaz da luz do Sol
Que a sombra persegue correndo veloz.
Não mais cai a chuva, a glória passou e ela morreu
Como o arco-íris.

Ela morreu Como morre a neve na praia caída à beira do mar
E a maré subindo, serena e lenta e sem piedade
E vai cobrindo sem nunca ver nem admirar
Sua brancura.

Ela morreu Como morre a voz da harpa que ao soar vai esmorecendo doce e
solene.
Como num conto de encantar ela morreu
Um conto que ninguém ouvira e estava ainda
Em seu início.

Ela morreu Como morre o luar que da Lua desce
E o marinheiro da noite escura se arreceia.
Como um sonho doce ela morreu e ao sonhador veio
A tristeza.

Ela morreu Ao acordar sua beleza, Sem ela o Céu
Não fora o Céu. Ela morreu e assim o Sol
Na madrugada se vai erguer e apagar.


Evan Maccoll

05/05/11

Ela...


The Irrepressibles | Mirror Mirror, 2010


"Uma tristeza sepulcral habita estes bosques. 

Há um escasso feixe da distante luz solar que perfura o maciço das copas 
e ilumina a terra. Como é profundo o silêncio. Interrompido apenas pelo sussurro 
do vento inquieto ao passar por estes bosques velhos. Chega-nos ao ouvido 
a estranha melodia feita aqui na morada selvagem." F.M.

19/04/11

há músicas



"Há músicas que só podemos
ouvir de joelhos."

Renata Correia Botelho in, Small Song