24/05/14

uma e a mesma coisa.

Grand Palais | Bill Viola



"São várias as tribos que habitam a cidade. Entre elas há uma, talvez a mais insignificante de todas, constituída por poetas para quem poesia e salvação do mundo são uma e a mesma coisa."


Jorge Sousa Braga

23/05/14

la serie sorpresa de la temporada.

Martin Freeman in Fargo, 2014


"Fargo, la serie, es una auténtica sorpresa. Eso en principio es buena señal, aunque a veces sucede que la crítica ensalza un producto que a uno no le llega por el motivo que sea. A fin de cuentas, cada espectador es un mundo y cada crítico también. Pero en este caso he de sumarme al coro generalizado de voces entusiastas. Aunque carece de sentido comparar el largometraje original y el show televisivo (porque aquella película es mucha película, desde luego), esta serie es una hija más que merecedora del nombre de su padre. No solamente ha conseguido la improbable proeza de capturar el universo Coen sin desvirtuarlo, sino que lo ha llevado a otro formato con tal habilidad y derroche de talento que todo el escepticismo inicial va siendo demolido, golpe a golpe, conforme transcurren los episodios." 

Emilio de Gorgot, aqui. 


Ólafur ArnaldsFor Now I Am Winter, 2013

Why sleep?

© Susannah Wimberley | Frances Barrett - Occupation, 2014

"Walking and sleeping are the two sides of being. Aristotle put it this way: «It is necessary that every creature wich wakes must also be capable of sleeping, since it is impossible that it should be always actualizing its powers.» This makes sense. We know that we have to sleep. We know that sleeplessness makes us cranky, stupid, and sad. And yet, why we sleep, why we dream, and even why we are wakeful - conscious - remain mysteries."

Siri Hustvedt, in Living, Thinking, Looking

22/05/14

A pluridade humana.

Hannah Arendt

"a liberdade de pensar, a capacidade de julgamento, em tempos sombrios, em distinguir o bem do mal, sem se agarrar a ideologias, como se fossem uma bengala, é muito difícil, é um acto de profunda solidão, mas vitalmente necessário. Quanto a mim, foi sempre essa a postura e a ousadia de Hannah Arendt (...). E os poucos homens e mulheres que o fizeram, confrontaram-se com a mais terrível solidão." Irene Pimentel

É hoje,
© Andrei Tarkovsky | The Mirror, 1975

"And I remember every object with fierce affection. Had I not loved my grandmother, and had she not loved my mother very well and loved me, those things would just be things. After Mormor died, I walked with my own mother outside our house in Minnesota, and she said to me that the strangest part of her mother's death was that a person who had only wanted the best for her wasn't there anymore. I recall exactly where the two of us were standing in the yard when she said it. I remember the summer weather, the slight browning of the grass from the heat, the woods at our left. It's as if I inscribed her words into that particular landscape, and the funny thing is that they are still written there for me. Not long after that conversation, I dreamed that my grandmother was alive and spoke to me. I don't remember what she said in the dream, but it was one of those dreams in which you are conscious that the person is dead but is suddenly alive and with you again."

Siri Hustvedt, in A Plea For Eros

20/05/14

olhados pelas coisas que olhamos.

© Miller Mobley

"Aprendemos então certas astúcias, por exemplo: é preciso apanhar a ocasional distracção das coisas, e desaparecer; fugir para o outro lado, onde elas nem suspeitam da nossa consciência; e apanhá-las quando fecham as pálpebras, um momento, rápidas, e rapidamente pô-las sob o nosso senhorio, apanhar as coisas durante a sua fortuita distracção, um interregno, um instante oblíquo, e enriquecer e  intoxicar a vida com essas misteriosas coisas roubadas." 

Herberto Helder, in Servidões

19/05/14

© Gregor Schneider


"For years, I have a dreamed of a room in which people can die in peace. It's a simple room: flooded with light, with a wooden floor."

Gregor Schneider, aqui.
© Sprengel Museum Hannover - Kurt Schwitters 


"Kurt Schwitters, too ironic to be a romantic, too abstract to be a surrealist, too anarchic to be a constructivist." 

Philip Oltermann, aqui.

18/05/14

© Henri Cartier-Bresson - Paris, 1968

"Tornamo-nos naquilo que somos por meio dos outros, e o nosso eu é poroso, não uma caixa selada. Se é verdade que começa como um mapa genético, trata-se de um mapa genético que se revela ao longo do tempo e somente em relação com o mundo. Os americanos agarram-se desesperadamente aos seus mitos de autocriação, ao individualismo implacável, hoje mais assente na economia de mercado do que no pioneirismo, à auto-ajuda, essa bizarra deturpação do faça-você-mesmo que transforma o ser humano num objecto que pode ser consertado com uma caixa de ferramentas e um manual de instruções. Não somos autores de nós mesmos, o que é diferente de dizer que não somos agentes ou que não temos responsabilidades - quer apenas dizer que tornamo-nos no que somos não escapa à relação."

Siri Hustvedt, in O meu pai, eu mesma - Granta 3, 2014


"a desilusão pode ser um combustível para incendiar uma luta quase tão forte como a ilusão." 

António Rodrigues, aqui.

17/05/14

16/05/14

© Steve Schapiro | Samuel Beckett - Film, 1964


"De repente, estou só no mundo. Vejo tudo isto do alto de um telhado espiritual. Estou só no mundo. Ver é estar distante. Ver claro é parar. Analisar é ser estrangeiro. Toda a gente passa sem roçar por mim. Tenho só ar à minha volta. Sinto-me tão isolado que sjnto a distância entre mim e o meu fato. Sou uma criança, com uma palmatória mal acesa, que atravessa, de camisa de noite, uma grande casa deserta. Vivem sombras que me cercam — só sombras, filhas dos móveis hirtos e da luz que me acompanha. Elas me rondam, aqui ao sol, mas são gente. E são sombras, sombras..." in Livro do Desassossego citado ontem por Delfim Sardo.

Para a semana há mais.

Não consegui nunca ver-me de fora.

© Dziga Vertov - The Man with a movie camera, 1929

"Não há espelho que nos dê a nós como foras, porque não há espelho que nos tire de nós mesmos. Era precisa outra alma, outra colocação do olhar e do pensar. Se eu fosse actor prolongado de cinema, ou gravasse em discos audíveis a minha voz alta, estou certo que do mesmo modo ficaria longe de saber o que sou do lado de lá, pois, queira o que queira, grave-se o que de mim se grave, estou sempre aqui dentro, na quinta de muros altos da minha consciência de mim. in O Livro do Desassossego

15/05/14


"O que principalmente tenho feito é sociologia e desassossego." 


Fernando Pessoa 
a 
Armando Cortes-Rodrigues, em 2 de Setembro de 1914

Mais aqui.

O triunfo da possibilidade de se ser o que se quiser, contra a intolerância.

© The Irrepressibles - Jamie Irrepressible


"É nas coisas a que, numa primeira leitura, tendemos a não atribuir grande importância, pelo menos perante os outros, que acabamos por nos revelar. É como nos sonhos. Rimo-nos deles, quando os contamos. Mas depois de decifrados, entendemos o seu alcance. Quando discutimos apaixonadamente assuntos mundanos acabamos por expor indirectamente de forma mais verdadeira o que pensamos sobre política ou a vida em comunidade."
Vítor Belanciano, aqui.

13/05/14

Não somos seres estáticos. Envelhecemos, mudamos.

© Mark Seliger - Antony Hegarty


"Nos meus romances, escrevi como mulher e como homem. Escrevi como pai. Escrevi como filho. No romance mais recente, tornei-me no meu próprio irmão imaginário, o rapaz que acabou por nunca chegar à minha família. Uma jovem mulher veste-se como um homem. Coloca a sua armadura e vagueia pela rua. Um homem pinta o seu autor-retrato enquanto mulher. Um homem veste-se de mulher e encontra-se a si mesmo."

Siri Hustvedt, in O meu pai, eu mesma - Granta 3, 2014

12/05/14

© Miller Mobley | Kevin Spacey

"Our job, our fundamental job is to not serve ourselves. It’s to serve the writing. And if you serve the writing, you will serve yourself in the end." 

Kevin Spacey, aqui.

11/05/14

music at the house

Sydney Opera House Forecourt | The National, 2014

10/05/14

só as casas explicam que exista uma palavra como intimidade



"Celebremos as casas: casulos de memória onde se guardam ilusões que o tempo desfez, gestos que não se repetirão, fragmentos e ruínas do que fomos. Aquilo que somos."

Carlos Vaz Marques, in Editorial Granta Portugal | 3

09/05/14

Os mistérios de Toledo

© Carlos Saura - Luís Buñuel,Toledo 

"A lenda do Grego começou assim com o romantismo modernista do início do século XX: o artista era um antecessor longínquo da pintura moderna ou um lunático, um místico sem paralelo no seu tempo ou um doente com problemas de visão. Ainda por cima vivera a maior parte da sua vida em Toledo, e esta cidade excitava a fértil imaginação dos europeus do Norte e dos próprios espanhóis, a cidade romana, visigoda, muçulmana, moçárabe, hebraica, cheia de fantasmas, subterrâneos escondidos, vozes que sussurram na noite. Escreveram-se literalmente dezenas de novelas e romances populares, muitos deles vindos de escritores americanos, quase todos lidando com o oculto.
(...)
Mas a história mais espantosa do triunfo romântico e modernista de Toledo sucedeu nos anos de 1920. Escreveu o futuro realizador Luis Buñuel em Março de 1923: “Passeava pelo claustro da catedral [de Toledo] completamente bêbado, quando, de repente, ouço cantar milhares de pássaros e sinto que devo entrar imediatamente na igreja dos Carmelitas, não para me fazer frade mas para roubar a caixa do convento. Vou até lá, o porteiro abre-me a porta e vem um frade. Falo-lhe do meu súbito e fervente desejo de me tornar carmelita. Ele, que sem dúvida deu pelo cheiro a vinho, acompanhou-me à saída. No dia seguinte tomei a decisão de fundar a Ordem de Toledo.”
E se bem o disse, melhor o fez: com alguns amigos, criou uma Ordem surrealista e esotérica que tinha estatutos muito simples: “Vaguear à noite por Toledo completamente bêbado. Nunca tomar banho quando se estiver em Toledo. Ir lá pelo menos uma vez por ano. Amar Toledo acima de todas as coisas…" continua aqui.
Paulo Varela Gomes, in O Grego extravagante, 2014

in memoriam

Museo El Greco -Toledo, 1969

08/05/14

© Funarte SP - Antígona 2084

"É num ambiente solar que se deve falar de tragédia." 
Prof. José Pedro Serra


Para a semana há mais, 
© Refik Anadol | The Museum of Innocence, Istanbul

"The habit of collecting, of attachment to things, is an essential human trait. But Western civilization put collecting on a pedestal by inventing museums. Museums are about representing power. It could be the king's power or, later, people's power. (...) My point is that, whatever a life is made of, its dreams and disappointments, is worth taking pride in. 
In building my own museum in Istanbul, I am very close to my character Kemal. I don't want to exhibit power but express my interiority, my spirit. A museum should not be flags-signs and symbols of power-but intimate works of art. It should express the spirituality of the collector."

Orhan Pamuk, in A museum for person, not for power - aqui.

07/05/14

© Gerhard Richter 

«When I look out of the window, then what I see outside is true for me in its various tones, colors, and proportions. It is truth and has its own rightness. This excerpt you like for that matter, is a constant demand on me, and it is a model for my pictures.» Gerhard Richter

What I see is true for me. This true is not the truth of science, of an objective view. It is not the camera's truth, nor is it an altogether private or solipsistic vision. I, too, can sit at the same window and point to a house we both see. That house can be shared, but the eyes of the painter will feel the demand of rightness in a way that I won't.

The demand of art is always also the demand of the world, a demand of truth (with a small t).

Siri Hustvedt, in Living, thinking, looking - essays

05/05/14

© Weegee | Coney Island, 1940

04/05/14

O autêntico é impiedoso.


Pieter Hugo - This must be the place

Até ao dia 1 Jun 2014  |  Das 10:00 às 18:00  |  Encerra às segundas

Sala de Exposições Temporárias da Fundação Calouste Gulbenkian 

03/05/14

Enfim, não sabes em que é que eu pensava...

© Vivian Maier 


"...secretamente, quando estava nos teus braços."

Jean Genet

02/05/14

© Eikoh Hosoe


"Reading the end of James Joyce's Ulysses when Molly Bloom is remembering is erotic because she gives permission, gives up and gives way, and this is always exciting and interesting because it is personal, not impersonal. Isn't it strange that looking at little abstract symbols on a white page can make a person feel susch things? I see her in his arms. I am in his arms. I remember your arms."

Siri Hustvedt, in Living, thinking, looking - essays